DIZIAM AS MÁS LÍNGUAS…
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DIZIAM AS MÁS LÍNGUAS…

Você está pensando que fuxico é coisa de hoje? Rapaz, esta coisa vem lá dos primórdios. Os homens da pré-história já fofocavam buscando as fraquezas, os medos, os desejos e como viviam os oponentes… Por este torrão, a tal das más línguas sempre se fez presente. João Arengueiro, por exemplo, era um expert nesta arte. Chegou a ser a pessoa mais importante deste vilarejo. Se ele não soubesse do sucedido, ninguém mais sabia. “Juão” era um sararazinho danado, baixinho, cabelinho arrebitado e um fofoqueirinho dos diabos.

O maior prazer deste caboclo era tomar umas e outras, o bicho entornava uma canjebrina lascada. Bastava alguma coisa acontecer para – mais desconfiado que cachorro em bagageiro de bicicleta – ele dar as caras lá no bar de Saracura (mudara do Porto pra cá). Se sentava no balcão só esperando algum curioso cair na sua arapuca e lhe pagar uma talagada.

– E aí, “Juão”. Diz aí… É de vera que Mané Gostoso pegou a esposa de servegonhice prus lado de Zelão? Conta aí, vá! Você sabe de tudo. Eu lhe pago uma!… – Com a cara mais lavada do mundo, João fingia não saber do assunto:

– Sei nada não, rapaz, sai pra lá, vida dos outros não é da minha conta não. Mané Gostoso é gente boa!  – Que pena… – dizia o curioso. – Logo hoje que eu ia lhe pagar um rabo de galo “vancê” num sabe de nada! Que pena, “Juão”!

– Rabo de galo? – Rabo de galo era a fraqueza do caboclo. – Bem, “inté” que estou sabendo de umas coisinhas aí… – Insinuava doido para tomar a birita. – Então conta pra gente! – Com a boca cheia de água, o Arengueiro gritava:

– Saracura desce aí um rabo de galo caprichado por conta do moço aqui. Bota logo um copo duplo, vá! – Enquanto Saracura caprichava no drinque, o arengueiro dava com a língua nos dentes: – Rapaz, nem lhe conto… num foi que Mané Gostoso deu uma bistunta e voltou mais cedo pra casa e pegou Zelão fungando no cangote da muié dele? A coisa foi tão feia que o infeliz ficou paralisado igual aquelas bibas quando quer pegar mosquito! Marilena arrancando os cabelos, implorando pra Zelão “judiá” dela e o corno do Mané sem saber o que fazer! Só deram por fé da presença dele quando chegaram aos finalmentes. Enquanto o infeliz abria a boca chorando, Zelão ainda teve a petulância de cumprimentar o traído pela boa esposa que ele tinha. Saiu “assubiano” pela porta da frente e Mané Gostoso nem tchum. Ficou foi chorando igual um bezerro desmamado!

– E daí, ele largou dela?

– Tú largou? Assim foi ele. Fez foi se ajoelhar pedindo clemência pra ela não largar dele… Chorou igual uma criança se agarrando nas pernas da adúltera… Desce mais um rabo de galo aí, Saracura. Esta história foi cumprida demais, merece duas talagadas. – E assim a fofoca rolava solta por este torrão. A cereja do bolo veio na Nova Conquista da década de 1970, no meio da feira. Aquele lote de feirantes vendendo tudo quanto há, uma gritaria lascada e não deu de aparecer uma mulher pra lá de despenteada correndo e gritando meio abilolada, só de calçola, perseguida por uma renca de gente? Pois foi. Tropica aqui, cai ali, levanta acolá e quando era agarrada se desvencilhava se contorcendo mais que minhoca e fazendo um escândalo disgramado.  – Eu quero me matar! Me solta!

– Deixa de lambança, Maricota. Não está vendo que é tudo invenção da peste desse povo? Só sabem cuidar da vida dos outros, esqueça isso!

– Tão falando que Bom-Cabelo me tirou de casa! É tudo mentira! Vou me matar! – Gritava se desvencilhando dos seus captores. Entre empurrões, gritos, apupos e desespero, a descabelada desembestou em direção ao rio da ponte. – Eu vou me matar, eu quero morrer! Antero não quer mais se casar… eu vou me matar! – Berrava à pleno pulmões, correndo desorientada em direção à ponte.  – Ouça a sua pobre mãe, Maricota! Se você se matar vai dar um enorme desgosto pra ela. Volte aqui pelo amor de Jesus Cristo, não cometa uma insanidade destas não! – Gritava os parentes tentando contê-la.

– Meu noivo não acredita em mim. Alguém diz pra ele que não me tiraram de casa não, é calúnia. Eu ainda sou moça… são um bando de mentirosos! Ah, meu Deus, eu quero morrer… – Corria quase pelada em meio à rodagem que levava ao rio da ponte. Uma renca de curiosos seguia o cortejo, reliando e torcendo pela tragédia alheia, vendo a moçoila com os seios desnudos e a calcinha suada fazer a alegria dos tarados de plantão. Maricota era uma linda nova-conquistense, morena de traços indígenas que se noivara do caixeiro-viajante Antero Peixoto. O amor do casal era tão pegajoso que deixava metade das mulheres do vilarejo enciumadas. Após ajeitar todo o enxoval, alugar e mobiliar a futura morada, Antero foi surpreendido uma semana antes por uma missiva anônima afirmando que Jaconias, o maior “desdonzelador” deste torrão havia quebrado a honra da sua noiva. Acostumado a não levar desaforo para casa o caixeiro-viajante deu uma bistunta e jogou todos os móveis recém-adquiridos no meio da rua, rompendo unilateralmente o noivado. De nada adiantou Maricota gritar, chorar, espernear e se descabelar jurando por tudo que era sagrado que era mentira… Antero Peixoto foi irredutível:

– Não me matrimoniarei com uma quenga da sua laia. Saia da minha frente! – Saiu deixando a infeliz em frangalhos. Após três dias e três noites de uma profunda depressão, secando as lágrimas de tanto chorar, Maricota resolveu se matar para limpar o seu nome, e assim, berrando igual filhote de ovelha desembestou em direção ao Rio Pardo atravessando à feira de ponta a ponta.  Assim que Maricota (só de calçola) passou correndo metade dos feirantes a seguiu. Todo mundo sabia que se ela caísse no rio, “tchau meu bem” (como diz Lolozim). Depois de se desvencilhar várias vezes dos que queriam contê-la, a moça chegou à ponte, subiu na grade, fez o sinal da cruz, tampou o nariz e preparou o pulo…  – Ninguém entra! Deixa eu me matar em paz! Antero vai carregar esta culpa pro resto da vida!… Deus sabe que sou inocente.

– Não, minha filha! A gente sabe, não se mate não! – Implorou a mãe.

– “Paín” acreditou neles! – Ameaçou se jogar e a mãe se ajoelhou chorando!

– Para! Se você morrer eu também me mato!…

– Não tenho mais motivos pra viver! Diga a Antero que ele é o grande amor da minha vida… vou pular… Adeus mãe, adeus paín…

– Não, filha! Pelo amor de Deus não faça isso! – Gritava o pai desesperado. Nesta altura já havia uma fila quilométrica de carros parados em ambos os sentidos só esperando a tragédia.  – Minha filha… – implorou o pai – desce daí que eu prometo convencer o seu noivo!  – Antero é orgulhoso, pai… nunca vai dar o braço a torcer! Ele não me quer mais não! – Foi aí se ouviu uma voz de homem bem no meio da multidão:

– Maricota! Que porra é esta? Para agora mesmo com essa fuleragem! Deixa de drama e desce daí que todo mundo sabe que você não é mais de nada! Pronto. Fui eu que escrevi a carta! – Revelou “Juão Arengueiro”, vizinho parede-meia de Maricota que assistia in loco (quando Antero se ausentava) o chamego de devassa com o amante! A moça gritava tanto que acordava a rua todinha!

– Merda, Juão, você que escreveu? Ah, meu Deus, estou fudida! – Diante do susto Maricota se desequilibrou… descambando de uma altura medonha. Enquanto o corpo despencava a plateia em cima da ponte prendia a respiração vendo a moça se estatelar nas águas revoltas. Tchibum! Caiu, afundou, subiu, afundou novamente e foi arrastada pela correnteza…  todo mundo gritando, gente chorando, a mãe desmaiando, o pai garguelando o fofoqueiro…   – Porquê você tinha que fofocar seu fi de uma égua? – Aquela renca de motoristas boquiaberto e o rio Pardo urrando valente. Choro, tensão, clima de velório e eis que um garotinho quebra o silêncio apontando para o meio do rio. – Olá, olá ela! Olá!  – Diante do turbilhão de água, após afundar e subir várias vezes, Maricota se agarrou desesperadamente a um tronco que descia correnteza abaixo e após um breve descanso, atravessou o rio nadando até chegar às margens, sentando-se calmamente em um lajedo. Indiferente, testemunhou o povo correr em sua direção. A mãe foi a primeira a chegar, se abraçando desesperadamente a ela. – Oh, Maricota! Graças a Deus, você está viva! Que susto você nos deu, filha? Não faça mais isso não, ouviu? – Disse acariciando a garota que calmíssima olhou para os presentes e falou com a cara mais safada do mundo…

– SÓ NÃO MORRI PORQUE DEUS NÃO QUIS! – Ela que não nadasse não!!!

No dia seguinte bem cedinho, lá estava o casal diante do padre Anfilhófio. Antero Peixoto de terno e gravata e Maricota de véu e grinalda casando-se diante dos olhos de Deus e da língua do povo. Viveram felizes, embora, por coincidência, sempre que o marido viajava, notava-se um sorrateiro Jaconias rondando a casa. Não por acaso, o filhinho do casal saiu cagado e cuspido a cara do “desdonzelador”. Pura coincidência, né?

FIM

Luiz Carlos Figueiredo

Dos Confins do Sertão da Ressaca.

Cândido Sales, BA. Quadras de maio de 2026.

Outono, lua Minguante.