Carta em Estado de Vertigem
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Carta em Estado de Vertigem

Arquivo Pessoal – Ítalo Pereira, Toque do Criador
(Não foi escrita para ser lida. Foi deixada para ser sentida.)

Há presenças que não chegam — acontecem.
Tu és uma dessas.
Não vi quando chegaste.
Apenas notei que o mundo havia ganhado um novo contorno,
como se o ar decidisse soprar diferente só por tua existência.

Não és brisa. És vento.
Não és palavra. És pausa.
Não és caminho. És desvio e destino ao mesmo tempo.

Contigo, o chão continua firme…
mas há algo em mim que flutua.
Não é fuga. É voo com raízes.

Há algo no modo como tu habitas o instante —
como se o tempo ficasse olhando para ti antes de seguir.
Como se as coisas ao teu redor desacelerassem só para te escutar.

Teu corpo carrega mapas que não se leem com os olhos.
São trajetos que se pressentem com a pele,
como quem tateia um antigo grimório esquecido no escuro.
E cada vez que me aproximo,
uma parte minha que eu não conhecia desperta.

Tu és o que vibra quando tudo silencia.
O que aquece mesmo sem tocar.
O que permanece mesmo depois de partir.
Teus ecos não gritam — murmuram.
Mas dentro de mim, o que murmuram acende tudo.

E eu sigo, não porque me perdes,
mas porque tua lembrança me empurra adiante.
Sigo com tua presença impressa nos meus interstícios,
como quem carrega fogo sob a pele e aprende a andar em brasa.

Não desejo te prender.
Desejo apenas que o universo continue te escrevendo.
E se um dia fores vento em outro céu,
que ao menos esse céu saiba a sorte que tem.

Há um espaço dentro de mim

feito à tua medida,
não para te conter,
mas para que descanses sempre que a realidade pesar demais.

E isso, mesmo sem nome,
já é tudo.

Ítalo Pereira
Toque do Criador – Sussurros que não pedem resposta