MARIA TOMBA HOMEM
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MARIA TOMBA HOMEM

Houve um tempo em que neste torrão os moradores eram divididos entre os que já tinham ido ou não à “Sun Palo”. Nas décadas de 1960 e 1970 os “sãopauleiros” (apelido pra quem já tinham ido) eram endeusados por aqui.

“Maria Tomba Homem” foi uma das raras mulheres que morou sozinha na capital bandeirantes. Após dois anos respirando o ar paulistano e deitando e rolando literalmente nos lençóis paulistanos (fazendo jus ao apelido), a moça voltou de mala e cuia. “Falada”, Maria voltou determinada e com a incumbência de se matrimoniar de qualquer jeito, afinal de contas, a idade estava chegando e o melhor era arranjar um pé de meia. Após se enamorar de Joaquim Bacurau que era honesto e trabalhador (conduzindo água em jumentos), a moça marcou logo o casamento e astuciou um plano para que ele não descobrisse que a sua donzelice já tinha ido pro brejo.

No dia do matrimônio mataram-se logo dois bois, quatro porcos, um capão, dois perus e meia dúzia de galinhas. Fizeram logo uma comilança para animar a festança que tinha dezenas de convidados. Logo cedinho, “Tomba Homem” a astuta, chamou o seu irmão Zé de Nena e deu-lhe um ultimato:

– Zé… – falou baixinho. – Aqui estão vinte contos. “Ocê” sabe “adonde” é o armarinho de seu Zequinha, “num” sabe?

– “Inhô” sei, irmã! Seu Ze… Ze… Zequinha é aquele… aquele… aquele moço “magrim” que vende… vende… tudo quanto há no “armarim” … – Já deu para perceber que o jovem Zé de Nena era gago, falava com uma dificuldade lascada, porém, era extremamente correto. – Vá lá Zé, e compre um “tintol” vermelho. Tem que ser da cor vermelha, não pode ser de outra cor. O troco é seu, compre o que quiser com ele. Não se esqueça da cor… vermelho, hein?

– Pode “dexá”, Maria… ver… ver… tintol vermelho…

– Agora vá que hoje amanheci com a barra da anágua virada.

Assim… Zé de Nena calçou as “percatas” de couro, vestiu a calça curinga, abotoou a camisa de manga comprida até o pescoço, colocou o chapéu de sola suado na cabeça e chispou. Para quem não sabe, tintol é uma espécie de pó muito usado no século passado para tingir tecidos. Geralmente se colocava uma peça de roupa em um caldeirão com este pó misturado à água. Algumas horas de cozimento… e, tingida, a roupa mudava de cor. Era uma grande alternativa para quem possuía poucas vestes.

Enquanto Zé de Nena ia ao armazém, “Maria Tomba Homem”, a astuta, combinava com sua mãe um plano para dar um chapéu no noivo. Joaquim “Bacurau” nem imaginava que o mel da “lua” da noiva se esvaíra há tempos.

Na feira, eis Zé de Nena adentrando o espaço físico de seu Zequinha que ia de uma ponta a outra da rua vendendo tudo quanto há. Carne do sertão, emulsão de Scott, ovos, espetos, agulhas, linhas, anzóis, tecidos, parafusos, chuleadeiras, penicos, giletes, babador… Dia de feira para se entrar no armarinho de seu Zequinha era um inferno! Zé de Nena, gago e tímido, entrou na fila e esperou pacientemente sua vez. Eis que chega à vez dele ser atendido e seu Zequinha com aquela paciência… pergunta: – E “ocê” menino, o que “ocê qué”?

– Um Tin… tin… tin… tol, seu Zequinha!

– Que cor, meu filho? – Voltou a perguntar! – Ver… ver… ver… – Se tem uma coisa que um gago não pode passar é aperto. Diante do empurra-empurra, Zé de Nena foi ficando vermelho, aperreado, suando e nada da palavra sair… – Ver… ver… ver… – Essa fila anda ou não nada? – Gritou logo atrás um nortista aperreado e no desespero, seu Zequinha falou: – Verde! – Pegou o tintol verde, embrulhou em um pedaço de jornal, entregou para Zé, voltou o troco e foi atender o impaciente. Pressionado, Zé de Nena não percebeu o engano, colocou delicadamente o tubo na algibeira e feliz da vida comprou um picolé de groselha indo ao encontro da irmã que ao receber a encomenda abriu um largo sorriso.

– Obrigada, irmão, muito obrigada…– encheu o irmão de beijos e correu ao encontro da mãe. No escuro do quartinho astuciaram o plano. Dissolveram o conteúdo em meio copo de água quente e despejou em um velho recipiente de desodorante. Testaram para ver se tudo estava funcionando e no escuro do quarto não perceberam que o vermelho tinha a cor verde. Cai à noite, casa cheia, o forró comendo, comida dando no meio da canela, bebida pra tudo que era lado, o noivo todo “empetecado” utilizando um cravo roxo na lapela e em um canto da sala, mais feliz que pinto no lixo, seu Felismino Açougueiro, pai de Maria, bêbedo feito um gambá! O infeliz perdera a esperança de ver a filha casada. Beijos, abraços, o sanfoneiro metendo os dedos e chega a tão esperada hora:

– Meu povo… – Falou uma radiante dona Luzia. – A festa acabou! Nós, pais de Maria da Anunciação e de Joaquim da Silva agradecemos a presença de “mecêis”. Agora vão nos dar licença para os noivos fazerem o que estão doidos pra fazer! – Apupos, aplausos, Isaurino bêbado enchendo os bolsos de ovos cozidos… logo, só restou quem era da família. Ansiosa, Dona Luzia acomodou os pais do noivo e após botar o marido chumbado para dormir se escondeu atrás da porta do quarto vizinho. Dentro da alcova, “Maria Tomba Homem” fingia ingenuidade com a vozinha dengosa:

– Ah, amor… “Vamo” deixá pra amanhã! Eu estou com medo de doer!

– Que amanhã que nada… – Rebatia um enlouquecido Joaquim pronto para o embate, tirando tudo que era roupa… à medida que ficava nu, “Tomba Homem” fingia cobrir os olhos! – Eu nunca vi um homem nu na minha vida, apague a candeia! – Que nada, no claro é que é bom, meu amor. – No quarto ao lado dona Luzia se contorcia toda cheia de vontade!

– Vem aqui meu amor, vem! Estou em ponto de bala! – Dizia Joaquim tentando agarrá-la à força. – Apague a candeia senão num vai ter nada hoje! – Tá bom, meu amor! Vem! – Falou assoprando o candeeiro. No breu, Maria se agarrou ao amado e entre beijos e línguas, carícias e gemidos… chega o grande momento: – Vá devagar, amor… Devagar… – chorava “Tomba Homem” segurando o ímpeto do amado! Por seu lado, Bacurau se contorcia igual uma minhoca procurando a porta do “paraíso”. Neste “lengalenga”, se até dona Luzia já não mais sabia onde colocar o desejo, imagine só “Maria Tomba Homem” que não tinha este nome por acaso, vendo aquilo roçando naquilo, doido para entrar? Desesperada pegou debaixo do travesseiro a sua “arma-secreta” e quando abriu de vez a “passagem secreta”, espirrou bem na porta da entrada o conteúdo da embalagem no justo momento em que Joaquim forçosamente lhe invadia!… Pra que?  Foi aí que o caboclo sentiu a presença inoportuna de um líquido viscoso lhe queimar a virilha… Uma queimação desgraçada que ardia mais que pimenta malagueta!

– Ai, meu Deus do céu! Tô me queimando todo! Ai que ardor, o que é isto? – Dizia pulando dentro da alcova igual galinha quando pisa em brasa!

– O que foi amor, o que houve? – Gritava Maria. – Acende a candeia diabo, acende esta peste que está doendo! – Berrava Joaquim segurando o “instrumento”. –  No breu e em meio ao desespero o casal testemunhou in loco dona Luzia derrubar a porta com um violento pontapé e adentrar abruptamente a alcova.

– O que foi filha, o que foi? – Não sei mãe, não sei… Joaquim está morrendo de dor, não sei o que houve… – Precavida, Dona Luzia acedeu o fifó e ao contemplar o “instrumento enrijecido” do noivo lambuzado de um líquido verde, gritou com a cara mais limpa do mundo:

– Desgraçado! Infeliz! Tarado… está vendo o que você fez?! Ao invés de descabaçar a coitada da Maria você furou foi o fel dela?

– Jesus!!! Furei, foi?!!

E Joaquim não acreditou na história? Pois foi. Viveu o resto da sua vida com Maria, inclusive, tendo um lote de filhos!

FIM

Luiz Carlos Figueiredo

Dos Confins do Sertão da Ressaca.

Cândido Sales, Bahia. Quadras de Maio de 2026. Minguante de Outono.