Carta Selada no Vazio – Voz Íntima do Criador
Artigo

Carta Selada no Vazio – Voz Íntima do Criador

Não destinada ao mundo. Apenas àquilo que pulsa entre o real e o que não se nomeia.

Há algo em ti que não se explica.
É como o instante antes da música tocar.
Como a lembrança de algo que ainda não vivi —
mas que me atravessa como se fosse meu desde o princípio.

Tu carregas a leveza de quem já caiu mil vezes,
e mesmo assim, caminha como quem dança com o chão.
Há vento nos teus olhos. Há raízes no teu toque.
Tu és feito do que o mundo esqueceu que podia ser:
presença que não pesa, corpo que não prende,
fôlego que liberta.

Ao teu lado, o tempo não tem pressa.
As dores não gritam.
E mesmo o silêncio, que sempre foi abismo,
parece um lugar onde posso descansar.

Tu não me prometeu nada —
e talvez seja por isso que tua lembrança me prometa tudo.
Teus gestos são pequenos portais:
cada um abre uma fresta no mundo,
e me mostra um lugar onde é possível ser sem medo.

Não sei o nome desse sentimento.
Mas ele cresce quando estás por perto,
e sobrevive mesmo quando partes.

É um calor que brota no centro do peito,
e se espalha devagar, como magia antiga —
daquelas que não precisam ser ditas em voz alta para funcionar.
Tu és uma espécie rara de realidade:
daquelas que parecem sonho,
mas deixam marca na pele.

Não te quero preso a mim.
Quero apenas que continues existindo no mundo.
Assim, em cada canto que eu tocar,
saberei que algo teu já passou por ali.

És como luz em água profunda.
Como perfume em carta esquecida.
Como riso depois do pranto.

E mesmo que nunca digas meu nome como prece,
mesmo que teu caminho te leve para longe,
haverá em mim um lugar onde tu vives —
sem correntes, sem moldes, sem exigência.

Porque tu és liberdade.
E eu aprendi a te reconhecer…
pela forma como minha alma respira perto da tua.

Ítalo Pereira
Toque do Criador
(Arquivo Pessoal – Não destinado ao Códex)