Por Mauro Falcão
Vejo pessoas discutindo nas redes sociais sobre política, ciência e religião com a intensidade de quem disputa algo que, muitas vezes, nem consegue ver por inteiro. Uns defendem bandeiras políticas como quem protege uma fé incontestável. Outros carregam livros sagrados debaixo do braço e acreditam possuir Deus como quem possui uma escritura de terras. Há ainda os que seguram diplomas como se papel fosse prova de sabedoria. Todos falam demais. Poucos escutam.
O político apaixonado diz: “Meu lado salvará o mundo.” O sacerdote diz: “Eu conheço a verdade.” O intelectual responde: “Somente eu possuo a razão.” E o mundo segue cheio de miséria, medo, ganância e solidão – Que grande sabedoria é essa que não consegue sequer ensinar o homem a ser simples?
Há militantes que transformam divergência em pecado político. Há religiosos que condenam os vícios enquanto adoram o poder. Há homens da ciência que criticam os dogmas enquanto criam novas normas com nomes mais elegantes. Mudaram apenas as roupas da arrogância. Antes, o homem ajoelhava diante de tronos e altares. Agora, ajoelha-se diante de líderes, instituições, títulos e especialistas. Continuam adorando algo. Continuam precisando de senhores.
Há cientistas que tratam qualquer dúvida como heresia. Há religiosos que transformam perguntas em pecado. Há apaixonados pela política que preferem defender suas certezas a examinar os próprios erros. Nenhum deles ama realmente a verdade. Muitas vezes amam a própria autoridade, a própria tribo, a própria imagem.
A verdade nunca teve residência fixa. Ela não mora exclusivamente nos templos, nos partidos ou nas universidades. Às vezes aparece num velho sentado ao sol observando o comportamento humano com mais honestidade do que mil discursos sofisticados.
A ciência pode revelar como as coisas funcionam. A religião pode perguntar por que existimos. A política, quando saudável, pode organizar a convivência humana. Mas o homem vaidoso transforma tudo em instrumento para sentir-se superior aos demais. Eis o problema: não é Deus, não é a ciência, não é a razão, não é a política. É a vaidade humana. O homem cria sistemas grandiosos para esconder algo muito simples: o medo de admitir que sabe menos do que imagina.
Talvez a sabedoria comece exatamente aí: quando alguém finalmente abandona o orgulho de parecer sábio. Porque há mais verdade em um homem consciente da própria ignorância do que em multidões defendendo certezas que jamais tiveram coragem de questionar.
Mauro Falcão, pesquisador e escritor brasileiro
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