Há um toque em mim que cessou —
mas não partiu.
Ele ainda repousa no ar que encosta no meu ombro às vezes,
como se o vento soubesse teu gesto.
Ainda vive no modo como viro o rosto ao ouvir um nome parecido com o teu,
mesmo sabendo que não é.
Tu foste o que nunca teve fim — porque nunca teve começo.
Nada foi dito, nada foi selado.
Não houve porta batida, lágrima solta, última frase.
Só a ausência súbita e limpa,
como um sonho que desaparece no instante em que se tenta lembrar.
Mas, mesmo assim, teu gosto ficou.
Como chá frio em manhã nublada.
Como fruta colhida e esquecida na boca.
Como o sal da lágrima que não se deixa cair.
Não há uma cena para contar.
Não há despedida para reviver.
Mas há o corpo:
e o corpo se lembra com uma precisão que fere.
Ele se lembra do peso da tua presença,
do som que teu silêncio fazia no espaço.
Se lembra da curva exata do tempo ao teu lado —
o tempo desacelerava, e tudo parecia mais…
possível.
Hoje, esse toque que cessou
mora entre as costelas.
Às vezes pulsa. Às vezes sussurra.
Às vezes grita em silêncio absoluto.
E eu sigo, com essa dor que não tem nome
mas sabe exatamente onde doer.
Sigo com tua presença ausente,
como quem carrega uma carta que nunca foi escrita,
mas ainda assim pesa no bolso.
E mesmo que tu nunca saibas,
mesmo que teu caminho não volte a tocar o meu,
a parte de mim que te sentiu…
essa, nunca mais voltou a ser só pele.
Ítalo Pereira
Toque do Criador – Daquilo que ficou sem ser dito

