VAR: Vídeo Apita as Regras
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VAR: Vídeo Apita as Regras

Autor:Luiz Henrique Borges

O brasileiro consegue avacalhar qualquer coisa. Não concordo com o senso comum que afirma sermos um povo alegre, feliz e receptivo. As diversas modalidades de violência que imperam no país, contando com a apatia de um estado inerte e preocupado apenas com a sua manutenção no poder, fazem vítimas diárias por todo o território nacional. Alguns casos, como o de Dom Phillips e Bruno Pereira, ganham maior notoriedade, no entanto, a maioria deles continua distante do conhecimento da sociedade. Nossa receptividade está sempre pronta e alerta para tirar alguma vantagem da situação. Nossa dita alegria, felicidade e receptividade é uma maneira de esconder nossa falta de seriedade, de cidadania, de profissionalismo e de responsabilidade.

Nem mesmo a tecnologia escapa de nossas mazelas. O seu uso trouxe e continuará a trazer diversos avanços nos esportes que vão desde a prevenção das lesões até a redução dos equívocos nos resultados. No futebol, modalidade pouco habituada às inovações, o VAR, Video Assistant Referee, ou seja, numa tradução livre, o Juiz Assistente de Vídeo, foi implantando na Copa da Rússia com o objetivo de auxiliar os árbitros a tomar decisões em lances duvidosos. No Brasil, país afeito à terceirização das responsabilidades, o VAR se tornou uma espécie de senhor das decisões.

Nossa história é marcada por diversos movimentos messiânicos que aguardam a chegada do “Salvador” e talvez isto explique uma parte da terceirização das responsabilidades e a crença cega no VAR. O denominado sebastianismo continua impregnado em nossas almas e, a partir dos discursos polarizados, é facilmente identificável. Não acreditamos nas instituições, nas leis e nas regras, mas discursamos apaixonadamente, intumescendo as veias da garganta, que tal ou qual político será capaz de alterar radicalmente a realidade brasileira. Pobre de nós! Dom Sebastião, origem do mito do sebastianismo, não voltará da longínqua batalha de Alcácer-Quibir e não serão os mitos contemporâneos que nos colocarão no rumo certo.

A outra parte que explica a terceirização das responsabilidades se encontra na má formação e no caráter amador da arbitragem nacional. Após a implantação do VAR, os árbitros e seus assistentes passaram a acreditar que o antigo rei português havia ressuscitado, se instalado em salas repletas de tecnologias e ele seria capaz de esconder o amadorismo e a má formação de parte destes importantes atores do futebol. Mais um engano.

O que era para ser um coadjuvante de luxo, se tornou em nosso futebol um protagonista. Por vezes, ele é forçado a assumir esse papel. Os assistentes, por exemplo, parecem que estão com os braços engessados, não levantam mais a bandeira para marcar os impedimentos. Aguardam pela intervenção das linhas “mágicas” do VAR. Outras vezes, ele é protagonista egocêntrico, interferindo em lances e ordenando que os juízes se dirijam a onipotente cabine em jogadas que ele sequer deveria intervir.

É também muito interessante perceber que os mais prejudicados são exatamente os juízes menos preparados. Inseguros em relação à qualidade do seu trabalho, eles estão extremamente sujeitos às determinações do VAR. Devem sentir arrepios de pavor quando ouvem no ponto eletrônico aquela voz que lhes parecem quase divina, solicitando a revisão da jogada. Durante a caminhada até a “telinha” o sentimento de culpa recai em suas costas e chegam arqueados na cabine que expiará os seus pecados.

Tenho outra figura de imagem que pode auxiliar no entendimento. O aluno que não se preparou para a prova apela para a cola acreditando que os colegas ao seu redor sabem mais do que ele. O juiz despreparado, o árbitro ruim, já vai para a cabine determinado a mudar sua decisão de campo e, como o aluno que cola, seguirá cegamente a sugestão de seu companheiro. Ele não questiona a qualidade daqueles que comandam o VAR. Caro leitor, imagine a lambança que ocorre quando um árbitro ruim conta com o apoio do VAR incompetente. No último domingo, o pênalti marcado, no início do confronto, em favor do Internacional contra o Botafogo exemplificou, na prática, o que estamos discutindo.

O juiz, próximo da jogada, não marcou, em campo, a infração. Chamado pelo VAR, que interpretou como antinatural o movimento do braço do defensor do alvinegro, o árbitro, pelo áudio liberado pela CBF, mostrou seu total despreparo e insegurança. Percebe-se claramente que, apesar da falta de convicção, ele alteraria a decisão de campo. Depois de observar a imagem, em diversos ângulos, em câmera lenta, em velocidade normal, o juiz fez diversas perguntas que não foram respondidas, como se buscasse legitimação do VAR para a sua decisão: “Ela (a bola) tem mudança drástica de direção ou ela ia passar? Se ela continua, depois de bater no peito, ela vai para a meta? Se ela passa, seria gol, correto? Vou voltar, marcar tiro penal e expulsão por impedir oportunidade clara de gol”.

O meu objeto aqui não é discutir se foi ou não penalidade, apesar de ter minha opinião, entendo que é a jogada era interpretativa. O que fica claro, e que precisa ser discutido, é a incapacidade do árbitro de tomar e manter as suas decisões. Ficou claro, no caso acima, que ele buscou insistentemente o aval do VAR. Ele deixou não só de ser soberano, mas também de ser necessário. Fica aqui uma sugestão, podem tirar os juízes e os assistentes de campo e o VAR pode apitar por intermédio dos alto falantes dos estádios, pelo menos, desta forma, os atletas e as comissões técnicas não terão uma figura física para discutir e demonstrar sua deselegância e falta de educação.

Os bons árbitros, que também comentem erros, conseguem fugir à tirania do VAR. Se é quase impossível vermos um árbitro chamado para a telinha e recusar a sugestão dos que estão no comando da tecnologia, Raphael Claus fez isto, acertadamente, duas vezes no segundo jogo da decisão do Campeonato Paulista. Nos dois casos em que foi chamado, Claus avisou a cabine da sua interpretação e ainda assim os assistentes tentaram, sem sucesso, mudar sua decisão. O VAR serve para corrigir erros claros e grotescos e não para investigar detalhadamente cada lance. Raphael Claus não só acertou nas decisões como deixou claro ao VAR qual é o seu lugar e que atitudes intervencionistas não são recomendadas.

O futebol é um esporte completamente profissionalizado e cada vez mais rápido e intenso. Se os atletas visualizam antecipadamente as jogadas, os juízes também precisam agir da mesma forma. O tempo na tomada de decisões por parte dos árbitros é cada vez mais exíguo e para ele ter sucesso é preciso que ele tenha a mesma preparação física dos atletas, acrescida do conhecimento das regras, ou seja, ele precisa se dedicar à atividade, ele precisa ser profissional. Se a era do futebol amador finalizou nos anos 30, já passou da hora de contarmos com arbitragens também profissionais.