O espírito do Marçal.
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O espírito do Marçal.

Era o Cruzeiro do Sul e, indicava ao jovem Edgar uma nova maravilha, estava com Cristina; deitados sobre os capins secos e fragmentados num dos abismos do Marçal, ambos com os braços arqueados de modo aos dedos se interligarem atrás das nucas; os olhos deles brilhavam ao fisgarem aquele Cruzeiro do Sul, lindo, era um céu quase aberto, apenas algumas fragmentações de nuvens viajantes, eram tantas estrelas e planetas. Decerto, tal deslumbre, lhes entenebreceu o carro com o pneu furado na encosta do abismo…

-É uma maravilha do mundo! – Disse Edgar.

-Não aos olhos dos homens. – Disse Cristina.

-Como assim, Cristina?

Desarquearam-se e puseram-se sentados um para com o outro, todavia, o Cruzeiro do Sul permanecera inerte, talvez.

-Ora, Edgar, nunca ouviu falar das Sete Maravilhas do mundo moderno?

Edgar titubeou o corpo e enfiou as mãos no bolso da camisa, retirou o maço e acendeu um cigarro.

-Sim, é claro! Quer dizer, houve uma atualização, sabia perfeitamente as do mundo antigo! – Retrucou à Cristina, ao mesmo tempo que soprava a fumaça do cigarro ao ar.

-Então, na nossa lista de “maravilhas do mundo moderno oficiais”, o Cruzeiro do Sul não está contido. – Disse Cristina em tom de humor, aliás, ela era muito bem-humorada por sinal. Vestia-se como uma Hippie, cheia de Dreads dourados, brincos, pulseiras, estava com um vestido branco e longo, tinha a pele clara e delicada, olhos grandes e escuros como buracos negros e, o corpo tão deslumbrante…, afinal de contas, outrora Cristina fora bailarina.

-Bem, como anda nossa lista? – Disse Edgar.

Aliás, naquele momento surgiu nos olhos castanhos de Edgar um brilho nunca visto antes, como se O Cruzeiro do Sul tivesse lhe injetado um sonho, talvez, um sonho. Edgar tinha os cabelos negros e angelicais, pele clara e barbas discretas, um corpo magro e bem acentuado na sua altura mediana, com as costas pouco curvadas.

-Bem, acho que…, – Cristina titubeou, esforçou-se demasiado para lembrar, reacendeu um baseado que estava repousado num pano velho com a estampa do álbum “Revolver” dos Beatles, ela até levantou-se para acender o baseado. – As Muralhas da China! – Continuou, – O Taj Mahal, ah, o Taj Mahal!

– Na Ìndia! – Edgar a interrompera de subido, também levantou-se e apanhou o baseado dos dedos de Cristina, “como que tivesse também lembrado da lista”, de modo que ambos continuaram a listar as Maravilhas do Mundo andando em meio as encostas do asfalto que alinha todo Marçal.

– Petra, Jordânia! – Disse Edgar.

– Coliseu, Itália! – Disse Cristina.

– Machu Picchu, Peru! – Disse Edgar.

– América do Sul! – Disse Cristina.

– Chichén Itzá, México! – Disse Edgar.

– Cristo Redentor, Brasil! – Esta, disseram de forma simultânea, quando se deram conta já estavam fazendo jus a “ I Want To Hold Your Hand”, como duas crianças, estavam tão empolgados a descreverem a lista para si mesmos que, nem se importunaram com o barulho perturbador dos carros que se arriscavam sobre os abismos do Marçal. Todavia, de repente eles freiam as botas! Era uma linha mórbida de um possível acidente, parecia ser deveras o infortúnio de alguém que acabara de descer com algum carro aqueles abismos longos e terríveis.

Cristina subitamente saiu do transe “Beatle”, deu alguns passos infortunados, de modo que Edgar acompanhara sua movimentação com os olhos, como que se tivesse esperando ela ter uma iniciativa, no fundo, ele já imaginara que ela iria propor algo através do arregalar dos olhos e da palidez do corpo.

– Edgar? Alguém desceu os abismos adentro, quer dizer, (ela titubeou) sei lá, alguém se acidentou aqui, agora!

– Decerto meu amor, decerto. – Disse Edgar, com os olhos fazendo um liame as marcas de pneu e a destruição dos galhos secos.

– Pois bem! Ligue para a ambulância! – Disse Cristina, mas em vão, Edgar não achava sinal de celular.

Alguns galhos começaram a estralar em meio a penumbra do abismo, surge-lhes repentinamente uma mulher visivelmente machucada, com suas juntas fragmentadas à arranhões demasiados vermelhos, sua testa, manchada de sangue, seus cabelos lisos e negros estavam gosmentos e anexados ao sangue, apesar de sua deformação, era uma mulher bonita, parecia a Mortícia Adams acidentada.

– Minha filha! Minha filha! – Gritava a mulher, desesperada!

Edgar e Cristina tentaram aclama-la com gestos, de modo que as palavras não saiam…

– O que houve? – Finalmente uma frase de Edgar.

– Desci os abismos e, e, minha filha está lá embaixo, presa nas ferragens do carro!

Dito isto, puseram-se os três a descerem rapidamente em busca da filha da mulher, a certa altura, perguntaram-lhe seu nome.

– Sou Anna!

– E sua filha, como se chama?

– Marília! Marilia! Ela é só um bebê, – a mulher chorava…

– Lá está! Edgar avistou depois de umas dezenas de minutos adentrando os abismos do Marçal o carro de Anna capotado com os faróis em direção aos céus “Conquistenses”!

Correram os três, depois, caíram…, e o abismo do Marçal levaram-nos como um Tobogã confuso e íngreme, arranhando seus corpos como unhas de uma Serra longa e louca!

Finalmente explodiram num rochedo, os três ao mesmo tempo! E, ao se recuperarem da tontura de suas cabeças chocadas, ouviram um ruído, de modo que o ruído ficou mais nítido, (era um choro), era um bebê chorando, talvez fosse o choro da miúda Marília presa nas ferragens do carro demasiado amaçado e esfumaçado, os faróis ainda acesos captavam uma fumaça quase invisível em meio a penumbra do Marçal saindo dos seus motores.

Edgar e Cristina correram para abrir carro, Edgar, deu uma voadora na porta do carro entreaberta! Ao mesmo tempo, Cristina percebera de súbito ao voltar-se a procura de Anna, que, a mesma, havia sumido repentinamente, Edgar mergulha para dentro do carro após a voadora, e sai com o bebê erguido sobre suas mãos, chorando, chorando e, ele, vendo Cristina gritando o nome de Anna, pergunta: – Onde está Anna?

E, ao rodearem o carro com a miúda Marília uma hora no colo dum, outrora, no colo doutro, veem simultaneamente Anna com a aparência de Mortícia Adams morta e presa nos para-brisas.

E a pequena Marilia cessou o choro, de modo que notaram que as pegadas que chegaram junto ao carro, eram apenas de quatro passadas simultâneas, isto é, não viram as pegadas de Anna chegando junto ao carro capotado.

Kaio Supras – 09/06/24    —– Vitória da Conquista- Ba.