Por Hieros Vasconcelos
Entre a seca que compromete reservatórios no interior e as chuvas que colocam comunidades inteiras em alerta na capital, a Bahia acumula uma conta bilionária. Levantamento da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec), reunido no Atlas Digital de Desastres do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, calcula que os desastres naturais provocaram mais de R$ 48 bilhões em danos materiais e prejuízos econômicos no estado entre 1990 e 2026.
O valor coloca a Bahia entre os estados brasileiros que mais sofreram perdas financeiras associadas a eventos como estiagens, secas prolongadas, enxurradas, enchentes, alagamentos e deslizamentos de terra. Segundo o painel da Sedec, os registros são alimentados pelas defesas civis municipais e estaduais e atualizados monetariamente pelo Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI).
Para o chefe de projetos da Defesa Civil Nacional, Lucas Mikosz, os números refletem informações prestadas pelos próprios municípios atingidos.
“Os danos humanos e materiais, bem como prejuízos públicos e privados, são todos informados pela Defesa Civil dos municípios, com apoio das Defesas Civis dos respectivos estados. O ente municipal possui fé pública para informar os danos, porém a Sedec eventualmente pode solicitar correção em caso de inconsistências ou equívocos no preenchimento. Posteriormente, os valores monetários são atualizados conforme o IGP-DI”, explica.
Conforme o Atlas Digital de Desastres, parte expressiva das perdas está ligada ao funcionamento de serviços essenciais. Os prejuízos públicos somam R$ 179,08 milhões em todo o estado. Desse total, cerca de R$ 91 milhões estão relacionados ao abastecimento de água. A assistência médica de urgência responde por aproximadamente R$ 20 milhões, enquanto os prejuízos no sistema de esgotamento sanitário chegam a R$ 15 milhões.
A destruição de bens e estruturas públicas também aparece entre os principais impactos dos desastres. De acordo com o levantamento, os danos materiais ultrapassam R$ 219 milhões na Bahia. A infraestrutura geral concentra mais de R$ 108 milhões desse total. Estruturas comunitárias, como equipamentos de uso coletivo, acumulam outros R$ 13,43 milhões em perdas.
Há ainda os prejuízos privados, categoria que reúne perdas sofridas por comerciantes, produtores rurais, empresas e moradores atingidos pelos desastres. Entram nessa conta mercadorias, equipamentos, lavouras, rebanhos e patrimônios particulares comprometidos por secas, enchentes ou outros eventos extremos.
Os municípios do interior aparecem entre os mais atingidos financeiramente. Conforme os dados da Sedec, Bom Jesus da Lapa lidera o ranking estadual, com R$ 24,6 milhões em prejuízos públicos e mais de R$ 35 milhões em danos materiais. América Dourada ocupa a segunda posição em perdas ao erário, acumulando R$ 8,9 milhões. Na Chapada Diamantina, Morro do Chapéu registrou R$ 7,9 milhões em prejuízos públicos.
As três cidades estão localizadas em regiões onde a escassez de água e os longos períodos de estiagem afetam diretamente a economia local. A redução da produção agrícola, os impactos sobre a pecuária e os custos para garantir o abastecimento das populações ajudam a explicar parte desses números.
O crescimento dos prejuízos provocados por secas, enchentes, deslizamentos e outros eventos extremos ocorre em um momento em que as mudanças climáticas ocupam o centro das discussões globais. Neste ano, o Brasil sedia a COP30, Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, em Belém, reunindo líderes mundiais, cientistas e organizações da sociedade civil para discutir medidas de enfrentamento ao aquecimento global e adaptação aos seus impactos.
O debate acontece após uma sequência de recordes de temperatura registrados no planeta. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), caso o ritmo atual de emissões de gases de efeito estufa seja mantido, a temperatura média global poderá subir entre 2,6°C e 3,1°C até o final do século. Para o ambientalista Eduardo Santana, esse cenário está diretamente ligado ao aumento dos eventos extremos. “Para os cientistas, isso significa a intensificação de secas, enchentes, ondas de calor, incêndios florestais e perdas de biodiversidade”, afirma. Na Bahia, os efeitos já podem ser percebidos tanto nas estiagens prolongadas que atingem o interior quanto nas chuvas intensas que provocam alagamentos e deslizamentos em áreas urbanas.
Salvador sob alerta permanente
Nos últimos anos, a capital tem registrado episódios de precipitação acima da média histórica. Em maio do ano passado, por exemplo, foram contabilizados mais de 418 milímetros de chuva, volume cerca de 39% superior ao esperado para o período. Em bairros como Palestina, Barro Duro, Cajazeiras e Mirante de Periperi, os acumulados ultrapassaram a marca dos 500 milímetros.
O cenário voltou a chamar atenção neste ano. Em apenas uma semana de junho, Salvador registrou mais de 200 milímetros de chuva, quantidade próxima de toda a média prevista para o mês. O resultado foi o aumento das ocorrências relacionadas a alagamentos, infiltrações, ameaças de deslizamento e danos em imóveis.
Segundo a Defesa Civil de Salvador (Codesal), os períodos de chuva intensa exigem monitoramento permanente das áreas consideradas de maior vulnerabilidade geológica. Atualmente, diversas comunidades contam com sistemas de sirenes instalados em localidades sujeitas a deslizamentos de terra.
Moradora do bairro de Coutos, Maria Regina conhece de perto essa realidade. Todos os anos, durante o período chuvoso, a rotina da família muda por causa do medo de deslizamentos e desabamentos.
“Toda noite de chuva são horas de sono a menos. É acordar com olheira, com preocupação, vendo se algo caiu, se algo rachou dentro de casa. A gente olha as encostas ao redor para ver como estão, mas não adianta, porque sabemos que podem cair a qualquer momento. É medo todo dia quando chove”, afirma.
Quando os acumulados de chuva atingem níveis críticos, as sirenes são acionadas para alertar os moradores e orientar a saída preventiva das áreas de risco. Segundo o diretor-geral da Codesal, Adriano Silveira, a resposta da população aos alertas é fundamental para preservar vidas.
“Quando as sirenes são acionadas, a orientação é que os moradores procurem imediatamente os pontos de apoio e locais seguros previamente definidos”, afirma.
Os dados reunidos pela Defesa Civil Nacional mostram que a Bahia convive simultaneamente com dois extremos: a falta de água em parte do território e o excesso dela em outras regiões. Em ambos os casos, os impactos econômicos e sociais continuam crescendo e ajudam a explicar uma conta que já ultrapassa R$ 48 bilhões em prejuízos acumulados.
FONTE: TRBN

