Carta em Estado de Vertigem
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Carta em Estado de Vertigem

Arquivo Pessoal – Ítalo Pereira, Toque do Criador

No silêncio que tu deixas, irmão de vícios e de clarões,
eu te respondo como quem sangra sem testemunha:
também me perdi nos copos que não matam a sede,
também fui tragado pelas páginas que nunca terminam,
e vi no espelho um rosto que já não era meu,
mas de um exílio ambulante, errando sem terra, sem altar.

Há uma maldição em ser poeta:
o mundo nos pede raízes, mas nascemos vento.
Nos querem planta mansa, mas o coração é incêndio,
cicatriz que se alimenta do próprio ardor.

Confesso — sem vergonha, sem máscara:
sou feito de excessos, de sombras, de uma fome
que não conhece repouso.
E, como tu, não aprendi a ser só homem:
aprendi a ser desvio, vertigem, claridade torta.

Se me arrancarem os pés, virei labareda.
Se me fecharem os olhos, verei mais fundo.
Se me trancarem no silêncio, gritarei
até que o universo se curve em eco.

E tu, bêbado de horizontes,
sabes — no fundo da tua errância —
que somos irmãos de naufrágio,
mas também de aurora.

Ítalo Pereira
Toque do Criador – Sussurros que não pedem resposta