
No ano de 1979 da era cristã, Cândido Sales engatinhava buscando um lugar ao sol. Na época a agência dos Correios e Telégrafos funcionava em um velho galpão de João Barroca, no centro da Praça D. Pedro I, próximo ao escritório do falecido Wilson Ferraz e parede meia com o famoso “Consultório” do Dentista Antônio Celeiro, “protético” expert na arte de confeccionar dentaduras à base da cera derretida das velas! O músico, cantor e compositor Rosemberg Oliveira veio gerenciar a agência e trouxe a tiracolo um carteiro chamado Tonico. Em pouco tempo Berg se enturmou com o pessoal da cultura local e passou a achar Candin a coisa melhor do mundo. Tonico passou a se sentir um peixe fora d’água. Concursado, prestes a se casar com uma morenaça conquistense, sem alternativas, o moço resolveu se aventurar. A noiva do caboclo era tão bela que deixava os machos da cidade de queixos caídos. Sua visita era periódica e quando isso acontecia, virava um evento! A beldade adorava sair desfilando, trajando jeans justo, botas longas à altura dos joelhos, apresentando um rebolado tão espetacular que deixava os invejosos babando. Metade dos homens da cidade saíam para observar o gingado sensual da morena baixinha, cujos cabelos batiam na bunda enquanto suas vestes desenhavam em detalhes a sinuosidade do corpo, moldado com zelo pelo criador e que só de sacanagem, ela incrementava ainda mais com seu rebolado sensual.
Na época, o boteco da moda era a Yes de Genilson – sobrinho de Viana da Churrascaria – localizado no coração da praça. Ali, além da cerveja gelada saía uma diversidade de petiscos de cair o queixo. Ao cair da tarde lá estava aquele lote de vagabundos, um barulhão lascado, bate-boca, algazarras… e eis que repentinamente se faz um silêncio sepulcral e todos correm porta afora. Sim, lá vinha ela. A baixinha do carteiro Tonico, desfilando toda a sua sensualidade à frente do boteco. De uma beleza que fazia o tempo parar! A favor dela, é bom que se diga, que tinha um moral inatacável. Não dava um sorriso pra ninguém – mesmo ao lado do noivo. Isto não evitava, por exemplo, que após a sua passagem estes clientes quebrassem o pau entre si ciumando da beldade. Uma vez deu até cadeia. O Delegado Pino Bochecha (que frequentava o ambiente e também admirava a moça) prendeu o Beato Salu por desacato por jogar um beijo na direção da moça e despertar uma reação em cadeia virando o maior quebra-pau!… Por conta disso o Beato dormiu uma noite “inteirinhazinha” no xadrez, embora, nem Tonico nem a noiva soubessem do sucedido.
Mas nem tudo eram flores na vida de Tonico. O cara tinha aversão à bebida alcóolica. Bastava molhar a ponta da língua pra se virar na porra. Se tomasse uma ou outra talagada ficava completamente transtornado! O que mais se via por aqui era a mulherada enlouquecida, dando em cima do carteiro e ele fugindo para a pensão. Quando chumbado era o contrário, era ele que saía correndo atrás das mulheres. Sóbrio, era uma reserva moral. Enquanto o músico Rosemberg tocava (literalmente) os corações de duas dezenas de jovens senhoras, Tonico jurava ajoelhado fidelidade à sua futura esposa, deixando indignadas metade das mulheres de Candin. Quando recebia seus proventos, Bergão promovia uma farrinha! Arrumava uma velha vitrola, emprestava um bico de luz de uma das duas casas que tinha gerador próprio, comprava dois litros de conhaque Presidente e munido de um balde de gelo convidava os amigos a vararem a noite ouvindo a sua coleção de MPB (leia-se: Caetano, Gil, Fagner, Amelinha, Zé Ramalho, Alceu Valença, Belchior e afins). Tonico era forçado a participar destes “eventos”, embora, detestasse aquilo. Para não contrariar o colega, ia meio acanhado. Quando este moço tomava duas talagadas, saía correndo pela cidade doidinho de pedra, gritando, dando cambalhotas, rolamentos, chutando portas de lojas e dando com a cabeça nas janelas, parecia um aluado.
– “Cadê as muié, onde é que tá? Venham cá muié, vamo chamegá”! – As mulheres mais gulosas até tentaram traçá-lo chumbado, porém, não tinha jeito. O moço dava a maior broxada e saía vomitando.
Neste tempo, além de uma mulherada louca de pedra, o índice de rapazes que gostavam de rapazes também era altíssimo. Havia, por exemplo, um farmacêutico chamado Bastião que cortava mais que esmeril. Não aguentava ver um macho! Não foi que Bastião de uma hora para outra não se invocou de traçar Tonico? Falou pra Deus e o mundo que pagaria qualquer quantia! Queria tê-lo nem que fosse por uma hora. Cansado de levar cantadas de Bastião, Tonico terceirizou seu trabalho. Sempre que tinha alguma correspondência para a farmácia, o carteiro dava uma ou outra moeda para um menino e mandava entregar. Diariamente Rosemberg flagrava a quantidade insana de bilhetes apaixonados que chegavam para Tonico, geralmente com propostas indecentes, inclusive, com Bastião oferecendo uma grana preta para se envolverem sexualmente. Tonico ficava indignado, porém, avesso à violência, melhor levar na esportiva e continuar tocando a vida. De pirraça, sempre que sua beldade vinha à Candin, Tonico fazia questão de desfilar com ela pelos quatro cantos da cidade e só de sacanagem passava na porta da farmácia. Pra que? Bastião virava nos seiscentos. Tinha até taquicardia. Gritava, se descabela, derrubava as prateleiras e chorava até soluçar. Nesta hora, os colegas hipotecavam solidariedade fazendo afagos, cafunés beijos e abraços… embora, nada o fizesse se acalmar.
– Vou me matar! Ele não me quer por causa dela! Vou estrangular aquela sirigaita desgraçada! – Alas que em um destes “eventos” realizado por Berg, o carteiro tomou as duas talagadas de sempre e quando deu por fé lá estava ele nu como veio ao mundo correndo pela cidade com a mulherada correndo atrás. Isso fez que os gays preparassem uma tocaia e na base do chicote o tomasse das garras das meninas. Geralmente, quando ele atingia este índice de loucura era Berg quem o acalmava. Neste dia, enroscado entre dois pares de coxas, Bergão se entreteu e só veio dá fé da falta de Tonico quando chegou a notícia que ele, bêbado feito um gambá, havia sido sequestrado pelos “meninos traquinas” da cidade. Sim, depois de um intenso quebra pau, a turma de Bastião conseguiu botar a mulherada pra correr e levou o rapaz à força para o campinho de terra batida, protagonizando um espetáculo erótico.
Ao perceber o perigo que o amigo corria, Berg e as garotas saíram do jeito que estavam no quarto da pensão – enrolados em velhos cobertores e picaram a mula atrás do carteiro. Tonico foi salvo quando rolava de língua entrelaçada com Bastião. Por pouco não houve a “desdonzelação”, já que completamente descontrolado, o infeliz se divertia debaixo de Bastião e seus “Blues Caps”. Foi um fuzuê lascado para tirarem o carteiro das mãos da rapaziada. Nervoso, Bastião queria porque queria dar na cara de Berg e só se acalmou quando foi ameaçado de ser denunciado para o dono da farmácia – que também era seu amásio. O medo o fez se acalmar!
Coincidência ou não, uma semana depois o jovem Tonico pediu transferência para Conquista, deixando o pobre do Bastião com o coração dilacerado! O baque foi tão grande que ele ficou quase um ano chorando esperando a volta do seu grande amor!
Pior só mesmo para os fregueses da Yes, com a transferência de Tonico nunca mais assistiram ao desfile sensual da baixinha morena!
Luiz Carlos Figueiredo
Dos Confins do Sertão da Ressaca.
Cândido Sales, Bahia. Quadras de julho de 2026.
Nova de inverno.

