A MORTE DO GATO MEL!
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A MORTE DO GATO MEL!

Quem acompanha estas mal traçadas linhas toda semana, está careca de saber que um dos meus parceiros musicais mais afetivos é o Gato Mel. Isso mesmo, um felino. De maneira geral, gato por si só já é marrento por natureza, Mel era muito mais que isso. Parecia ser o dono do mundo. Chamou tanto a minha atenção que virou personagem de um dos meu livros. “O Sucedido foi Desjeitim”, relata ser ele o único ser vivo a não se incomodar com o meu gosto musical.

Mel pertence a Quitinha a esposa de Nego, que não por acaso é o barman do buteco que frequento semanalmente. O bar de Nego é um dos mais populares do Bairro da Lagoinha. Este é um bairro bem peculiar onde tem mais igrejas que supermercados e mais butecos que igrejas, é um buteco raiz. É tão raiz que só aceita pagamento em moeda corrente, o proprietário despreza veementemente o pix e outras formas de pagamentos. Quem chegar neste buteco sem grana pode ter certeza que não será atendido.  As únicas coisas boas que ainda existem por lá são as árvores sombreiras decorando a entrada e o famoso Gato Mel. Muita gente que leu o meu livro quis vir à Candin apenas para conhecer o Buteco de Nego e por tabela conhecer o gato musical.

Este felino tem uns cinco anos de idade e é gordo que parece um Major – diria Luiz Gonzaga -, e se acha o dono da rua, tanto que não respeita bicho nenhum. Se algum cachorro, gato, pombo ou pardal adentrar a rua que ele se acha dono, o bicho se vira nos seiscentos e após uma crise de infezação eriça os pelos e quebra o oponente no pau. O embate rola até um dos dois correr. Geralmente quem corre é o oponente, já que tem que ser muito macho para bater de frente com o nosso gato. Vira e mexe, após desaparecer por dois ou três dias ele sempre retorna caxingando, todo remendado e com metade dos ossos quebrados. Basta chegar e já é tratado feito um rei. A sua dona lhe ministra uma renca de remédios, passa pomada nos seus ferimentos, lhe bota leite quente na boca com um conta-gotas e o deixa dormir por até cinco dias encarreados nos pés da cama do casal em uma caminha improvisada com uma coberta quentinha. Foi isso que deixou Mel muito do mal acostumado.

Quando não está arranjando confusão ou posando para alguma foto com os fregueses do buteco, a sua diversão primordial é se deitar todo esticado em cima da mesa que utilizo. Chega de mansinho, salta em cima, dá uma bela de uma espreguiçada e após colocar o “pé dos zuvidos” colado na caixinha de som, passa a tarde inteirinha roncando e ouvindo música. Tem um gosto eclético, porém, neste período de festa junina ele gosta mesmo é de forró pé de serra. Quando ouve o barulho da sanfona (com zabumba e triângulo) o bicho dá logo dois miados cavernosos, põe a língua pra fora e fica balançando ritmicamente a cabeça.

Todo sábado a homilia se repete. Quando chego, lá está ele sentado no meu lugar me esperando. Faço um leve cafuné na sua cabeça, peço a primeira do dia e assim que a garrafa é destampada ele já pula sobre a mesa dando a alongada de sempre e se deita confortavelmente. Por educação eu lhe ofereço um trago, ele gentilmente recusa… ofereço um petisco ele aceita com desdém e quando aparece qualquer outro bicho perto da mesa ele dá um duplo mortal carpado, cai de pés se equilibrado nas quatro patas e após ficar todo eriçado promove uma renca de mungangas… rosna enfurecido, dá algumas piruetas e faz caretas na direção do invasor… a pressão é tanta que o jeito é o intruso meter o pé.

Ele é “desjeitim” … quando furioso se lixa se o oponente pesa três vezes mais do que ele ou que seja o triplo do seu tamanho. Faz tanto barulho que bota o adversário pra correr. Vitorioso, estufa o peito e volta a subir na mesa com uma marra que deixaria Gabigol enrubescido.

Outra característica do nosso mascote é a capacidade de ler a energia negativa dos frequentadores. Se algum mal intencionado aparecer no recinto, ele rosna feito um leão, se eriça, se equilibra nas pontas das patas e caso o intruso não saia, quem sai é ele e de forma imponente. Quando isso acontece à mesa inteira já sabe que o chegante não vale um tostão furado. Sim. Mel tem este dom.

Tenho um conhecido pra lá de complexo. Após quebrar a cara por várias vezes e perceber que estava sendo engolido pela curva do tempo, resolveu se reciclar… Pra se tornar uma pessoa melhor, de uma hora para outra o caboclo passou a cuidar dos gatos de rua. Segundo ele, investe mensalmente um terço do seu salário de aposentado comprado rações para os pobres felinos, tanto que a sua casa é entupida até os beiços destes gatos vadios. Aqui na Lagoinha o prazer dos críticos é vê-lo todo santo dia andando pelos becos estreitos, seguido por uma renca de gatos de rua. Lembra muito a lenda dos irmãos Grimm que descrevem um flautista mágico que encantava os ratos. No caso dele, não tem gato que resista a um bom punhado de ração. É ele na frente conduzindo o saco furado nas costas e os gatos miando atrás. Coisa de doido!

Dia destes este caboclo apareceu no buteco e a primeira coisa que Mel fez foi fechar a cara pra ele. Como ele ignorou solenemente a advertência, bastou puxar a cadeira para o nosso gato cair fora. Quem conhece o nosso mascote já foi tirando uma linha: Se Mel não gostou é porque o caboclo não vale uma pipoca. Após a educação mandar que oferecêssemos um copo, o cabra se sentou e solveu no fôlego todo o conteúdo. Estava com sede. Querendo puxar assunto falou com voz desolada:

– Não sei porque Deus me castiga tanto, eu sou uma pessoa tão boa! Não consigo entender porque passo por tantas provações!

– Porque você se acha uma boa pessoa? – Quis saber um curioso.

– Eu gosto de gatos, alimentos os “bichim”, deixo dormir no sofá, me preocupo com eles e metade do meu salário é pra comprar ração. A bíblia diz que quem gosta de animais tem um bom coração. – Afirmou com convicção. Eu olhei pra Fernando, que olhou pra Gereba, que olhou pra Ostinho que olhou para Kinho Soares… como ali ninguém é de passar pano, Fernando entrou de sola:

– Se tu fosse bom Mel não saía da mesa toda vez que você aparece aqui. – Pra que? O caboclo virou a porra. Ficou duas horas dando explicações.

– Saiu porque quis! Eu sou um cabra bom, todo gato sabe disso!

– Se Mel saiu é porque você não é tão bom como pensa! – Falou um outro. O caboclo ficou tão furioso que recusou veementemente mais um copo de brahma. Fez o sinal da cruz, jogou fora a bebida e passou o resto da tarde entrunfado. Mas, pra nós é assim, o que vale é a avaliação do nosso mascote. Se Mel não aprovou é porque o cara não presta e pronto. Veredito aceito!

Pois, é. Toda esta encheção de linguiça foi apenas para dizer que nosso gato de estimação morreu repentinamente. Após ficar uma semana recusando se alimentar amanheceu com os dentes arreganhados, com as canelas esticadas e duro feito um pau. Infelizmente, Mel bateu as botas!

Após me ausentar por uma semana voltei à Confraria sábado passado e entre soluços e lágrimas, recebi atônito a triste notícia. Falaram até que contactaram uma funerária para providenciar um féretro, porém, desistiram diante do custo altíssimo. Só sei que ficou um vácuo na mesa. A partir de agora ouvir música sem Mel não vai ser a mesma coisa. Que ele tenha uma boa passagem.

Agora o que mais me incomodou naquele sábado foi que quase todo mundo que por ali passou e me viu sozinho tomando minha breja. se dirigiu respeitosamente até minha pessoa, estendeu a mão e me deu, os pêsames!… É mole?!! É de lascar!!!

 

FIM

Luiz Carlos Figueiredo

Dos Confins do Sertão da Ressaca

Cândido Sales, Ba. Quadras de Junho de 2026.

Outono (quase inverno), lua cheia.