Golpes cibernéticos – Foto: Divulgação | Freepik
No mundo atual, a tecnologia está cada vez mais enraizada na rotina da humanidade, englobando também o setor bancário. Com essa conexão, portas se abrem para golpistas que invadem sistemas ou usam inovações como as Inteligências Artificiais (IAs) para lesar vítimas. Pensando nisso, o portal A TARDE preparou uma sequência de duas matérias especiais que recebe o título de “Uma ameaça foi detectada*”, com tudo o que você precisa saber sobre o que está por trás deste e outros tipos de delitos relacionados à tecnologia.
Nos últimos anos, o principal crime cometido por golpistas, de acordo com dados enviados pela Polícia Civil da Bahia (PC-BA) ao portal A TARDE, foi o de estelionato [crime de obter vantagem ilícita induzindo alguém ao erro por meio de fraude], com o total de 35.948 ocorrências. Veja comparativo entre 2025 e 2026:
- De janeiro a março de 2025: 8.575 ocorrências;
- De janeiro a março de 2026: 7.388 ocorrências.
Com esses dados, é possível notar uma diminuição no registro de casos de estelionato, quando comparado o primeiro trimestre de 2026 ao mesmo período de 2025.
Por que o estelionato domina o número de casos registrados?
Diante dos dados, é notório que o crime de estelionato é o mais denunciado, o que não é uma surpresa para o coordenador do Laboratório de Inteligência Cibernética da Polícia Civil da Bahia (Ciberlab), delegado Felipe Dias.

Qual a pena para o crime de estelionato?
Existem algumas variações, de acordo com a forma como ele é cometido. Conforme o JusBrasil, as penalidades são:
- Estelionato comum: reclusão de um a 5 anos, além do pagamento de multa;
- Estelionato eletrônico/digital: reclusão de quatro a 8 anos e multa.
Vale ressaltar que ambas as modalidades são, perante a Lei 15.397/2026, inafiançáveis, sendo essa decisão restrita ao juiz.
Além disso, as penas podem sofrer variação, com aumento de um terço até o dobro, caso o crime seja cometido contra:
- Idosos;
- Vulneráveis;
- Mediante fraude eletrônica internacional;
- Contra entidades públicas.
Porém, caso o criminoso seja réu primário e o prejuízo causado seja de pequeno valor, o magistrado pode aplicar a pena de forma mais branda, podendo reduzi-la de um a dois terços, aplicar somente a pena de multa ou convertê-la em restrição de direitos.

Em entrevista ao portal A TARDE, o delegado Felipe Dias contou detalhes sobre os golpes, principalmente o de estelionato, abordando:
- Quais cidadãos são os mais suscetíveis aos golpes;
- Como as organizações atuam;
- Os tipos de golpes;
- O uso da IA nessas fraudes;
- Como se prevenir.
- Quais os principais alvos dos golpes?
O delegado informou que seria praticamente impossível mapear geograficamente as regiões mais suscetíveis a golpes. Porém, ele revelou que a principal faixa etária procurada pelos golpistas é a de 40 a 60 anos de idade.
A explicação para isso seria “a vida financeira estabilizada, já que as pessoas entre 40 e 60 anos que estão trabalhando, gerando renda, são a maioria da população. Então, nós vemos que grande parte das vítimas está nessa faixa etária”.

Como as organizações atuam?
Não existe uma barreira geográfica para o crime cibernético
Felipe Dias – Delegado
“Ao redor do Brasil, existem polos, verdadeiros escritórios do crime voltados especificamente para crimes virtuais”, contou o delegado Felipe Dias ao portal A TARDE. Ou seja, atualmente não se pode restringir um golpe a apenas uma região, o que, para o delegado, dificulta a investigação.
Somado a isso, o coordenador apontou que os criminosos utilizam cada vez mais tecnologias para tentar se ‘anonimizar’ no meio digital. No entanto, Felipe ressaltou que hoje, a Polícia Civil já possui ferramentas para isso. “A gente possui metodologia para identificar essas pessoas”.
Já para o rompimento da barreira geográfica, o coordenador do Ciberlab contou que a operação deve ser planejada minuciosamente e em conjunto com outras forças da Secretaria de Segurança Pública da Bahia ou de outros estados.
“O combate ao crime cibernético hoje em dia é realmente bem interinstitucional. Para chegar a esse criminoso, nós precisamos do apoio de outras polícias, de outros órgãos do Ministério Público, da OAB — nos casos de golpes de falso advogado — e do Banco Central”, relatou.

Principais tipos de golpes
Além do estelionato, que é atualmente o golpe de maior expressão na Bahia, registrando 7.388 denúncias no primeiro trimestre de 2026, existem diversas outras modalidades que vêm ganhando força, como:
- Golpe do Pix – o golpista faz uma transferência para sua conta, alega engano e pede que você devolva o valor para uma chave diferente da que enviou. Enquanto isso, ele aciona o banco para recuperar o valor original, fazendo você perder o dinheiro duas vezes;
- Golpe do falso advogado – fingindo ser o seu advogado, eles exigem o pagamento antecipado de taxas judiciais ou “guias de liberação” para supostamente liberar valores de indenizações ou precatórios;
- Golpe do Tinder – diversas modalidades de fraudes e crimes violentos que utilizam aplicativos de relacionamento para atrair vítimas. Atualmente, os casos variam de extorsão digital a sequestros físicos e latrocínio;
- Golpe do falso investimento – criminosos criam plataformas fraudulentas ou perfis falsos nas redes sociais, prometendo retornos financeiros rápidos e garantidos.
- Invasões de contas de redes sociais (Instagram, e-mail, Facebook).
Como a Inteligência Artificial é utilizada nos golpes
Não se pode negar que as inteligências artificiais (IAs) já estão muito inseridas na realidade dos brasileiros, e para os criminosos, isso não é diferente.
“É realmente preocupante. Hoje em dia, uma metodologia que os criminosos estão utilizando é o uso da IA, que veio para facilitar nossas vidas, mas também dificulta em outros sentidos”, avaliou o delegado.
Ainda conforme Felipe Dias, o principal uso das IAs atualmente nos golpes seria para simular propagandas para lesar as vítimas, induzindo o cidadão a um falso investimento. Além da falsa propaganda gerada por IA, muitas vezes utilizando a imagem de uma pessoa famosa, os criminosos estariam desenvolvendo uma nova modalidade que utiliza a tecnologia para clonar e reproduzir vozes alheias.
O coordenador do Ciberlab explicou que o processo de clonagem muitas vezes é feito por meio de ligações silenciosas. A captação acontece quando a vítima atende a ligação e diz “alô” diversas vezes, esperando que alguém do outro lado responda. É nesse momento que a voz é gravada e a ligação cai.
“Quando a vítima atende e fala várias vezes, o golpista vai treinando uma inteligência artificial com essa voz para poder criar diálogos inteiros e usar a sua voz para aplicar outro golpe”, explicou. Veja no vídeo abaixo:
Como se prevenir
Com uma variedade tão grande de golpes distribuídos pelo Brasil, a repressão aos crimes digitais não fica restrita à responsabilidade da Polícia Civil. Outros órgãos de segurança e o próprio cidadão podem ajudar a evitar as fraudes.
Confira as dicas para se prevenir de golpes digitais:
- Tenha senhas fortes e não repetidas: Um dos principais pontos ditos pelo delegado para aumentar a segurança digital é “ter senhas fortes, que envolvam letras maiúsculas, minúsculas, caracteres especiais e manter várias diferentes”.
- Confirmar informações com familiares: Em golpes nos quais alguém liga se passando por um familiar, o delegado instrui que, em caso de dúvida, a vítima ligue para o parente em questão e confirme se as informações são verídicas.
- Golpes de invasão de contas: Para ficar seguro nesse ambiente, além da senha forte, o delegado orienta: “É ideal que a pessoa já tenha uma verificação de dois fatores para todas as contas. Receber um SMS no seu telefone ou um código no seu e-mail é essencial hoje em dia para garantir a segurança”.

Ferramentas de proteção
Além da primeira linha de defesa, existem ferramentas criadas para gerar uma proteção extra para os cidadãos:
- BC Protege +: Ferramenta do Banco Central do Brasil que impede que criminosos abram contas bancárias no nome da vítima;
- Proteção do CPF – Permissão para participar de CNPJ: Tecnologia que bloqueia a tentativa de inclusão do CPF da vítima em um novo CNPJ;
- Registrato do Banco Central: Permite que o cidadão consulte informações financeiras vinculadas ao seu nome.
O que fazer após o furto do celular?
De acordo com o delegado Felipe Dias, o que se deve fazer de forma imediata ao notar que o telefone foi furtado é:
- Registrar o boletim de ocorrência imediatamente, seja de forma online ou presencial;
- Entrar em contato com os bancos para o bloqueio das contas;
- Entrar em contato com a operadora para o bloqueio do chip;
- Realizar o bloqueio e a formatação remota do aparelho pelo iCloud (se for um dispositivo Apple) ou pelo site do Google (se for um aparelho Android).
O que fazer caso sofra um “Golpe do Pix”?
Para transações financeiras fraudulentas por meio do Pix, o Banco Central disponibiliza o MED 2.0 (Mecanismo Especial de Devolução). A ferramenta funciona como um rastreador, bloqueador e devolvedor do dinheiro roubado.
Ao contrário da versão anterior, esta funciona como um “rastreamento em cadeia”, conseguindo bloquear e rastrear o dinheiro mesmo após ele passar por múltiplas contas de “laranjas”.
Como utilizar o MED 2.0?
Conforme o Banco Central, para utilizar a ferramenta, a vítima tem até 80 dias após a data do golpe para acionar o mecanismo.
Para isso, é necessário acionar o banco onde o dinheiro estava depositado, diretamente pelo aplicativo, e registrar a constatação da fraude. Após a notificação, a instituição financeira iniciará um processo de avaliação que dura, em média, 7 dias. Caso a fraude seja comprovada, o dinheiro retorna parcial ou integralmente para a conta da vítima.
Na próxima matéria da série “Uma ameaça foi detectada”*, o portal A TARDE vai detalhar mais a fundo como funciona o golpe do telefone mudo, que tem se destacado enquanto crimes mais recorrentes relacionados à Inteligência Artificial, quais são os riscos que ele apresenta à sociedade e o que fazer para se prevenir.
* Quem navegava pela internet nos anos 2000 certamente se lembra do susto e do alerta: “Uma ameaça foi detectada”. A frase que batiza esta série de reportagens resgata a famosa voz dos antigos antivírus para traçar um paralelo com os dias de hoje. Duas décadas depois, as ameaças mudaram de rosto: os novos golpes agora usam a inteligência artificial, exigindo do usuário uma atenção ainda redobrada no ambiente digital.
FONTE: ATARDE

