O sol não é ouro, nem a lua é prata
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O sol não é ouro, nem a lua é prata

O sol não é ouro, nem a lua é prata,
são apenas taças que bebem uma da outra,
e nesse banquete cósmico
a fome é luz, a sede é sombra.

O romântico devora sua própria paixão,
e o que sobra é só penumbra no prato,
bruma que mastiga o entardecer
como pão sem fermento.

A rotina é um olho fechado,
a inobservância é quem mais vê.
Porque só quem esquece
pode lembrar que o sol desce
e a lua sobe,
e que o movimento do céu
é só um truque de prestidigitação
feito para enganar mortais cansados.

As estrelas sabem, sim,
fuxicam em seus brilhos,
como velhas de aldeia celeste
comentando segredos de deuses embriagados.

E nesse teatro, o extraterrestre
nos serve em bandejas invisíveis:
o brilho da espuma,
o escuro da lacuna,
o silêncio entre uma palavra e sua catapulta.

E quando essa pedra verbal é lançada,
atravessa mundos cheios e imundos,
rasgando véus, acendendo uivos,
até pousar na mansarda
onde espíritos mórbidos guardam
o segredo da noite em frascos de vidro.
Italo Pereira