Amigo, a morte também ri,
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Amigo, a morte também ri,

Amigo, a morte também ri,
ela mastiga ossos como quem mastiga pão,
é criança e carrasca,
é beijo e cicatriz.

A vida que hoje canta embriagada,
amanhã soluça no colo da ressaca,
mas entre o silêncio e a palavra
há sempre o ressoar de um tambor secreto.

Fantasma é gente, sim —
pois até o vazio tem rosto,
até a ausência tem pulsação,
até a vírgula respira.

E se as estrelas são estradas,
eu caminho sobre elas descalço,
me cortando em cada luz,
me ferindo em cada brilho,
até sangrar constelações.

Amigo, somos cúmplices desse delírio:
tu me dizes que a vida é uma ópera,
e eu respondo —
é um coro de corvos,
é lágrima que se veste de véu,
é prostituta que ajoelha como santa,
é santa que se despe como prostituta.

E nesse teatro de sombras e astros,
nós dois, bêbados de infinito,
seguimos cantando
na contramão do universo.

Ítalo Pereira
Toque do Criador
(Arquivo Pessoal – Não destinado ao Códex)