A COMITIVA.
Artigos Opinião

A COMITIVA.

Longe estão os tempos em que a nossa gloriosa Câmara Municipal tinha uma renca de vereadores folclóricos. Era comum diante de uma votação apresentada, todos dizerem a mesma frase: – Eu adoço! – Na pratica queriam dizer que “endossava”! Felizmente estes tempos mudaram.

Em 1983 o estado da Bahia elegeu o Governador João Durval Carneiro (1984-1987). Ao receber a sua ilustre visita durante a campanha, a população de “Candin” ficou estupefata com a quantidade de obras prometidas em pleno palanque. Passado alguns meses as obras não chegaram e o então prefeito José Soares Silva convidou Diacísio da Rocha Viana (eleito com expressiva votação) para acompanhá-lo até Soterópolis com tudo pago para cobrar o governador. Para mostrar força levou a tiracolo metade da Câmara Municipal. E lá se foi a comitiva levando as nossas autoridades constituídas. Excetuando o prefeito e Diacísio, ninguém conhecia a nossa capital, eram todos debutantes (marinheiros de primeira viagem). O trajeto foi extremamente divertido, todo mundo zombando todo mundo. À medida que avançavam as mancadas iam se sucedendo. Ao chegar à cidade de Jequié, adentrarem em fila indiana uma loja localizada às margens da BR-116 e adquiriram toalhas, sabonetes, saboneteiras, perfumes, shampoo cremes para cabelos e etc…

– Vou tomar um banho lascado de praia! – Gritava um.

– Vou levar uma garrafa de água do mar para minha mulher, dizem que é salgadinha e serve até pra remédio… – Dizia outro.

Um dos vereadores da zona rural comprou logo quatro bermudas, usaria uma de cor diferente por dia. Pararam para almoçar em um churrascaria rodízio e o presidente da Câmara quase ficou empanzinado de tanto comer.

– Será que eu posso levar uns pedacinhos pra comer mais tarde? – Perguntou todo constrangido ao garçom. Ao chegarem à capital baiana na noite de sexta-feira, ficaram sabendo que a audiência só aconteceria na manhã da próxima segunda. Assim, procuram um dos hotéis da cidade que tivesse um precinho módico e dividiram o grupo em três quartos.

Incumbido de fazer a distribuição dos quartos, Diacísio aprontou com os colegas colocando o ar condicionado no máximo. Devidamente acomodados, se banharam, se lambuzaram de desodorantes, desceram para jantar e retornaram correndo aos quartos, queriam assistir à novela. Tv era novidade já que não existia sinal por estas bandas. Felizes, sentaram-se e sintonizaram a TV Aratu.  Até ali a maioria não tinha noção do que seria o ar que esfriava o ambiente. Assim que os quartos foram esfriando, os vereadores correram para o lado de fora.

– Que diabo de gelo é esse? Me falaram que aqui era quente?

– O pior que é só no quarto, tem alguma coisa errada, eu sô lá algum maluco pra dormir em um frio destes? Durmo não! Quando o Prefeito chegar, vamos reclamar! – Já imaginando o que iria acontecer, Zé Soares e Diacísio deram um passeio na orla e quando retornaram duas horas depois encontraram os infelizes sentados no corredor, trêmulos de frio e enrolados da cabeça aos pés em cobertores!

– “Oxêm” … Que houve com vocês? – Perguntou Diacísio com um sorriso nos lábios, morrendo de saber.

– Quem aguenta o frio que tá lá dentro? “Nóis” prefere “drumi” aqui! – Diacísio entrou e diminuiu o ar. Assim que a friagem passou, a gozação varou a noite! No dia seguinte, conforme combinado, seguiram todos para a praia. Ao chegar, o vereador da ceroula abacate ficou petrificado diante da beleza do mar. Ereto, ele não tirava os olhos do oceano, enquanto os colegas se “arranchavam” na areia. Depois de dez minutos, os companheiros preocupados foram saber o que estava havendo com o querido correligionário:

– Que está havendo, você está bem? – Parecendo petrificado e com o olhar perdido na imensidão, o caboclo balbuciava:

– Ô lagoão! Oia só o tamanho da bitela! Foi Deus que fez! Foi Deus que criou! Não dá nem pra ver o outro lado… A bicha é enorme, hein? Aí deve dar peixe no meio das canelas!… – Preocupado, Diacísio e os companheiros o levaram quase que a força:

– Moço, quem disse que isto é uma lagoa, isto é o mar… mar… entendeu? É o oceano, não existe lagoa deste tamanho não!

– Existe não, é?… Então… Ôôôôô “Marão”! Mas que o bitelo é bonito, é! Óia só o tamanho do “cavalo”! Viva o marão! – Com muita dificuldade, Diacísio conseguiu levá-lo até o grupo. Bastou chegar à barraca onde serviam uns petiscos e já avistou de longe um outro se ensaboando dentro do mar e reclamando do sabonete:

– Povo ladrão da “miséra”! Me “impurraro” um sabonete com defeito! Nem espuma o diabo faz! Na volta vou passar lá e exigir meu dinheiro de volta! Vou sair de Nova Conquista pra ser roubado aqui? – Ao olhar para o lado, lá estava o representante da zona rural, vestindo uma baita de uma cueca samba canção correndo atrás de uma louraça de biquíni asa delta!

– Vem cá “muierão”! Case “cum” eu, diabo! Largo minha “muié” pra “vivê cum ôce”! “Vamo casá, vamo”?  Eu largo o meu “cumbuco véi pra mode ficá só cum suncê”! – A loura entrou no mar e o pobre inocente entrou atrás, na primeira onda que veio o infeliz levou um sopapo tão “disgramado” que caiu estatelado na areia. Caiu se debatendo para um lado e a cueca para o outro.

– “Diacis”, acode aqui! Ele engoliu água salgada! – Vexame total. Sorte que os correligionários correram para acudi-lo. Tiveram que fazer uma rodinha para que ele pudesse (enrolado em uma toalha) voltar a se vestir. Depois do vexame saíu dando pequenos pulos, batendo na cabeça, tentando tirar a água que entrara nos ouvidos. Um outro mais jovem, todo metido a nadador (acostumado a atravessar o rio Pardo quando cheio) quase morreu afogado! Foi socorrido às pressas e ainda teve que aguentar a gozação com a quase concretização de uma respiração boca por um salva-vidas masculino.

– Sai pra lá diabo, quero beijo de homem não! – Outro, ao ser “resgatado” do meio da mulherada de biquíni fio dental berrava para quem quisesse ouvir: – Eita lugar “bão da gota”, se eu morrer agora, morro feliz! – Diante da situação inusitada, Diacísio viu-se obrigado a reunir a turma:

– Companheiros, nóis estamos dando vexame! Estamos na capital fazendo papel de gente besta! Vamos tentar pelo menos parecer civilizados? Olha aí o povo rindo da nossa cara!… – Mal terminara de falar e o vereador da zona rural, já completamente “mamado”, abraçou-se a Diacísio e gritou para todos ouvirem:  – “Diacis” … “Ocê” fala a verdade, é “maió” que o rio Pardo ou “num” é? – Dizia apontando para o mar e esticando o pescoço para ver se conseguia enxergar a outra margem. Resumindo, a ida à praia foi um completo fiasco, porém, quem disse que eles tinham “desconfiômetro”? O jantar foi no Casquinha de Siri. Comeram que lamberam os dedos. Durante a noite, os roncos e os peidos incomodaram a maioria dos hóspedes.

A audiência com o Governador João Durval Carneiro estava marcada para as nove da manhã, seis da manhã, lá estavam todos no Palácio do Governo esperando serem atendidos. Assim que foram chamados, entraram em fila indiana (com as suas melhores vestes) e ao serem apresentados, um dos vereadores abraçou e beijou tanto o governador que teve que ser contido por seguranças. Mesmo assim saiu gritando:

– Peguei na mão dele, não lavo mais nunca a minha mão!

Resumindo, as promessas continuaram no papel, porém, a partir daquela data a cidade de Cândido Sales entrou para a história por pela primeira vez na vida ter enviado uma surreal comitiva à nossa capital.

 

FIM

Luiz Carlos Figueiredo

Dos Confins do Sertão da Ressaca.

Cândido Sales, Ba. Quadra de julho de 2026.

Lua nova de inverno.