O MELIANTE
Artigos Opinião

O MELIANTE

Joquinha foi o baixinho mais popular deste torrão, ainda hoje mora por aqui e deve estar batendo na casa dos 70, embora continue do “mesjeitim”.  Deu por aqui quando tinha dois aninhos de idade e cresceu (não literalmente, óbvio) diante dos olhos da cidade. Foi engraxate na feira, estudante do Colégio Orlando Spínola e integrante de uma gang de bairro formada por amigos traquinas que tocava terror nos comerciantes. O ponto alto da vida de Joquinha era o 7 de setembro quando todo imponente, ele desfilava à frente da Banda Marcial…

Sim, mesmo com aquele tamanhozinho, ele emocionava todo mundo desfilando fardado. Joca era tão fofinho que parecia um bebezinho. Marchava tão bonitinho que a mulherada surtava!

– Olha como ele é bonitinho? Bilu, bilu! Vem cá fofinho!

Se formou em datilografia na escola de Dona Célia – a mais criteriosa deste torrão. Se habilitou (logo após a conclusão do curso de contabilidade) na criação da primeira Lan House da cidade e com muita dificuldade foi montando aos poucos até adquirir a preços módicos um monte de equipamentos essenciais para o funcionamento. Coincidentemente, na mesma época, ladrões subtraíram a secretaria de educação de Vitória da Conquista na calada da noite, roubando equipamentos de última geração, entre os quais, um computador recém-chegado de São Salvador.

Olha que computador neste tempo só sabíamos da existência através de filmes como “2001- Uma Odisseia no Espaço”. Desmoralizada, a senhora Secretária completamente desorientada, soltou os cachorros em cima das autoridades conquistenses, cobrando pessoalmente o intendente, que cobrou o delegado que se viu obrigado a exigir que uma renca de meganhas investigasse a região.

Foi uma semana inteirinha de policiais futucando tudo quanto há, prendendo, xingando, batendo, torturando e ameaçando até jogar ladrões vivos dentro de cisternas apenas para forçarem a confessar o roubo. Quando os samangos já estavam quase jogando a toalha surgiu uma denúncia anônima que a escrivaninha, as duas cadeiras de escritório e o computador foram vistos na única Lan House existente na pequena cidade de “Candin”. Querendo mostrar serviço, o Capitão Januário da Fonseca convocou a sua tropa e após uma reunião de emergência, baixaram por aqui de madrugada para prender o receptador e recuperar os objetos afanados.

Cinco da manhã, ainda no escuro e aquela renca de viaturas cheias até os beiços de policiais armados fechando o principal acesso ao Bairro da Usina, forçando os trabalhadores a passarem por outras vias, enquanto o comandante, especialmente designado para o ato – chamava a atenção pela farda diferenciada e por um monte de medalhas no peito – tocava terror. Pegou um megafone e com a sua voz de barítono começou a falar pra quem quisesse ouvir:

– Alô Joquinha. Aqui é o capitão Januário da Fonseca da gloriosa polícia militar no estado da Bahia. Já sabemos que você comprou os objetos roubados. O senhor está cercado. Não tem pra onde correr. Jogue todas as armas pra fora e saia agora com as mãos para o alto. Repito… está cercado, não tem como fugir e se resistir vamos abrir fogo!

Passa-se um tempo e nada. Os policiais nervosos, coçando os respectivos gatilhos das armas, alguns se escondendo atrás das viatura e necas do meliante aparecer.

– Senhor Joquinha, repito, o senhor está cercado. Não tem escapatória! Saia agora com as mãos levantadas. Se não obedecer vamos usar força letal. Saia agora de mãos pra cima. Repito: Aqui é o capitão Januário da Fonseca, comandante desta operação. Saia imediatamente!

Nesta altura metade dos moradores já presenciava a peleja, alguns com cara de sono, outros com as escovas nas bocas sujas de creme dental e todos trocando cotoveladas pra testemunharem o desfecho da trágica prisão.

– Último aviso. O senhor tem cinco minutos ou sai ou vamos invadir. Vamos entrar atirando! Último aviso.

Aquele suspense no ar, policiais tensos, curiosos esfregando as mãos e o capitão falando:

– Último aviso. O tempo acabou… dou-lhe uma… dou-lhe duas…

Antes do “dou-lhe três” ouve-se uma voz fanhosa, arrastada e fina como a de uma criancinha.

– Calma aí, gente! Pra que violência? Estou saindo de mãos pra cima. Eu digo como há Deus no céu, não carece atirar não.

– Saia agora mesmo! É uma ordem! Não tente nos ludibriar!  – Gritou o capitão. Enquanto os soldados engatilhavam os fuzis, ouviu-se um ranger de porta.

– Estou saindo, pelo amor de Deus não atire não, tenho um filho pra criar e não quero morrer não, segure os dedos aí, vou sair!

Um suspense lascado, a plateia prendendo o fôlego e eis que a porta é aberta lentamente, os soldados suando, um silêncio assustador e aparece caxingando, bem devagarzinho com as mãozinhas pra cima, aquele “trenzim piquininim, deste tamanhim”.

– Pronto, eu me entrego, estou desarmado!

Ao olhar o anãozinho, nem o capitão acreditou.

– Volta pra dentro menino, tá querendo morrer, diabo? Viemos prender o seu pai, mande ele sair e volte pra dentro. Manda seu pai sair agora mesmo!

– Mas, Joquinha sou eu. Fui eu que comprei os objetos!

– O que? Você é só uma criança. – Questionou o Capitão. – Quantos anos você tem, menino?

– 43, seu puliça!

– Meu Deus, é um anão! Teje preso!

Foi falar e uma renca de policiais pularam em cima do infeliz quase o esmagando. Tentaram algemá-lo e quem disse que conseguiram? Os bracinhos de Joquinha eram tão diminutos que as algemas escorregavam e caíam.

– Diabo, chefe! Não tem algema que caiba nos braços dele.

Sem alternativas o algemaram com uma rodilha, o jogaram na cacunda e o conduziram até a Lan House onde recuperaram os objetos furtados. Quando iam levá-lo preso, houve a pronta intervenção do Prefeito alegando que Joquinha também fora vítima dos meliantes.

Diante da cara de choro do baixinho, o capitão achou melhor ignorá-lo. Quem acreditaria que um “trenzim fofim” daqueles fosse receptador? Melhor voltar pra Conquista levando apenas os objetos.

Joquinha continua com a sua Lan House até hoje. Depois de ficar famoso, cobra pra conceder entrevistas às rádios e jornais conquistenses que sempre tem a curiosidade de saber como foi o sucedido.

Ele estufa o peito e explica todo orgulhoso como se safou do batalhão inteiro que se deslocou até este torrão decretadamente para prendê-lo.

 

FIM

Luiz Carlos Figueiredo

Dos Confins do Sertão da Ressaca

Cândido Sales, Bahia. Quadra de junho de 2026.

Viva São João, Viva o forró!