
Esta é a história do primeiro artista Cândido-Salense. O ano era 1975, Candin ainda era um bebê recém-saído das fraldas, o município devia ter aproximadamente uns 10 mil habitantes. A sede era composta pelas ruas Flores Dantas (Bairro Nova Conquista), José Porto e Aldemário Pinheiro (Usina), Avenida Rio Branco (Rua dos açougues). Movimento mesmo só na avenida Presidente Vargas rasgada de fora a fora pela rodagem BR-116. Ali se concentrava a nata do comércio local. Me lembro que menino (com uns 14 anos de idade) eu ia comprar óleo vegetal à retalho. As marcas mais vendidas eram a Mariflor e o Jaçanã que trazia estampado na lata quadrada um esquálido tuiuiú com as canelas deste tamanho, pescando em um córrego. Neste dia, lá fui eu para a venda de seu Antônio Pontes, levando um copo de vidro e o dinheirinho contado quando bati de frente com um enorme rádio de pilha ligado a todo volume na Rádio Aparecida de São Paulo.
– Pois é minha gente, este é o programa P.C. Lacerda, aqui na ZYZ 820 Rádio Aparecida AM, São Paulo… hoje apresentamos a sensação musical do momento, Dermeval Silva o cantor baiano da cidade de Cândido Sales. Conte aí, Dermeval, como começou a sua carreira? Nossos ouvintes querem saber… – Enquanto o artista explicava como compusera aquele hino de paz e amor, a venda se entupia de pessoas que faziam um silêncio sepulcral apenas para ouvir o “orgulho Cândido-Salense” que pela primeira vez na história, levava o nome do nosso torrão para outras paragens. Me esqueci completamente o que fui fazer e fiquei até o final da entrevista transmitida para todo o Brasil através das ondas médias em amplitude modulada da Rádio Aparecida AM. Assim que ele começou a cantar e tocar, saí levando o meu óleo e pude ir observando pelo caminho todos os rádios da cidade tocando a mesma estação em uma altura medonha!
Dermeval Silva é um mineiro (nasceu em Veredinha de Minas) que virou baiano quando era estudante em Sorocaba, São Paulo, em 1968. Forçado a voltar para casa, veio morar em Barra do Furado, mudou-se para Lagoa Grande e não por acaso, virou professor na Coréia e morador de Candin. Nasceu poeta e cantor. Desde pequeninho já malinava as cordas do violão, escrevia poesias e cantava magnificamente. Possuía uma eletrônica sem entender bulhufas de eletrônicos. Em 1968, Dé (como era conhecido por aqui) atendeu ao chamado do seu pai e virou garimpeiro. Após futucar os minérios de uma lavra subterrânea, juntou uma montanha de manganês, quartzo, mica, turmalinas e esmeraldas e com apenas 16 anos passou a representá-lo comercialmente. Em 1974, da eletrônica onde trabalhava, viu o movimento hippie tomar de assalto este torrão. A BR-116 foi ocupada de ponta a ponta por mais de mil hippies… brasileiros, chilenos, argentinos, americanos… brotavam às dúzias de tudo que era lado. Parava uma carreta descia uns 100. Um caminhão, outros tantos, ônibus, carros pequenos e até um Papa Jipe chegou lotado com mais de duzentos de uma só vez. De repente Candin virou a “meca dos hippies” com “tribos” entrelaçando os idiomas (parecia a Torre de Babel). Jovens cabeludos, barbudos, garotas lindíssimas usando saías longas com seus cabelos ainda mais longos, brincos, calças Lee, pantalonas, tamancos, bolsas tiracolos, camisas balons, sandálias de couros, artefatos espalhados por todo o corpo, pulseiras, cordões, rosários, anéis – quase tudo fabricado por eles – e uma renca de mochilas de lonas. O que mais se viam eram as tribos divididas por toda a extensão da rodagem, amando-se, beijando-se, comendo o que fosse possível, fazendo e vendendo artesanatos e tocando e cantando “My Sweet Lord” de George Harrison. As lindas garotas chamavam a atenção pelas roupas transparentes – não usavam soutien -, pela simplicidade, pela beleza e pela educação, sempre com um sorriso estampado no rosto, entrelaçando sotaques carioca com paulista, paranaense com mineiro, gaúcho com nortista, inglês com espanhol e sempre em paz apresentando o dedo em “V”: – Paz e amor, meu irmão! – As meninas não estavam nem aí, flutuavam fumando uma maconha lascada pregando o amor ao próximo. Logo o nosso artesão entrou de cabeça no movimento hippie e seguiu o cortejo, inclusive, mudando o nome para David Charly… Já chegava se apresentando: – Oi gente, meu nome é David Charly! – De nome trocado, Dermeval seguiu os hippies por todo o Brasil, tocando, cantando e vivendo do artesanato que produzia.
Depois de ficar enfermo por quase um mês, Dé retornou à Candin, passando a participar dos festivais que aconteciam na região. Ficou em 5º lugar no 1º Festival de Músicas Inéditas de Vitória da Conquista em 1976. Evento acontecido no antigo Cine Glória com “Os Imborés” (conjunto musical famosíssimo na época) fazendo a base para todos os concorrentes. A apresentação foi do antigo locutor da Rádio Clube, Edmundo Macedo, falecido em 2020. Em 1983, já morando em Vitória da Conquista participou do 4º Rio Pardo Festival que eu produzia aqui em Candin. Fez uma excelente apresentação ao lado de uma banda formada por Chico Paez, Coliomar, Renato e Marcos Freyre. Defendeu a música de sua autoria “Costumes do Sertão” … O auge de Dermeval como artista, se deu quando ele integrou o primeiro Conjunto Musical da história de Cândido Sales, o “Sérgio Som” de Daquinho, primo do violeiro Billy Roger. A banda tinha Leonel Ferraz na base, João Bocão na guitarra solo, Daquinho no baixo, Nozinho como back vocal e ele como vocalista. A estreia da banda deu-se em Itamaraty fazendo um sucesso estrondoso. Dé teve que repetir “Metamorfose Ambulante” de Raul por quatro vezes, levando a plateia ao delírio. Amanheceram o dia tocando. Em 1976 Dé era o bonitão do Grupo de Jovens da Igreja Católica de Cândido Sales. Além de partir o coração das donzelas, o músico também tocava músicas autoral, o que fez que ele fizesse uma cartinha toda carinhosa e enviasse para à Rádio Aparecida anexando a fita cassete com a música, “Paz e Amor” – que fizera para os hippies. Após se inscrever no programa do locutor P.C. Lacerda foi surpreendido ao ouvir a sua canção no rádio. “Paz e amor, meu irmão, entregue o seu coração só pra um… este que é nosso amigo, nosso irmão verdadeiro, Jesus Cristo é seu nome, Salvador do mundo inteiro (…)”. P.C. Lacerda encheu o artista de predicados, o convidando no ar para ir ao seu programa. Subitamente eis nosso artista ao vivo na rádio fazendo um show para o Brasil inteiro (em especial para Candin). Na entrevista ele falou da vida, do seu querido torrão, mostrou várias músicas autorais e bastou sair para ser abordado por uma renca de representantes das gravadoras. Finalmente virara um profissional. Bastou pisar neste solo para ser recebido como astro. Uma multidão o esperava no ponto do ônibus. Conduzido quase à força para a RDC por Geraldo do Cinema, caiu na bobagem de falar durante a entrevista:
– PC até perguntou se na minha cidade tinha rádio e eu disse que só tinha um sistema de alto-falantes. – Ah… Pra que? Foi ouvir e Geraldo se retou. – Não senhor, aqui tem rádio sim. A RDC é Rádio sim senhor. Transmitimos para os quatro cantos da cidade, você não deveria ter dito isso… quer saber, me aborreci, vamos parar esta entrevista agora mesmo. – Completamente desnorteado, Dermeval viu a emissora sair do ar bem no meio da entrevista. Foi aí que sentiu que mesmo famoso, Candin continuava do jeitinho que ele conhecera.
Não bastava ser famoso, tinha que bajular nossa gente!
FIM
Luiz Carlos Figueiredo
Dos Confins do Sertão da Ressaca
Cândido Sales, Bahia. Quadras de Abril de 2026.
Outono de lua cheia.
*Texto na íntegra no livro “Na Curva do Tempo”, ainda disponível para venda com o autor.

