JOCA, A CACHAÇA E O PANGARÉ.
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JOCA, A CACHAÇA E O PANGARÉ.

– Bom dia, seu Sena! Trouxemos aqui mais uma alma penada para o senhor dar um jeito. O menino até que é boa gente, o problema é a cachaça. Quando toma umas e outras faz coisas do arco da velha. Dá pro senhor dar um jeito?

– Ôxe, trouxeste ao lugar certo. Cachaceiro que entra aqui sai curado ou vai direto para o cemitério! – Estamos no início dos anos 1980, Seu Sena era um curador muito “afamado” na região. Rezador de excelência, o velho carregava o histórico de responsador, rezador e exterminador de cachaceiros. O gerente da única agência bancária da região cansando dos problemas provocados pelo seu subordinado (Joca quando “medicado” saía completamente do prumo), resolveu ver se procedia a lenda que reverberava em cada esquina, que o velho curador virara especialista na arte de tirar cachaça. A fama que o precedia dizia que centenas de beberrões haviam sido curados, inclusive, muitos voltaram à viverem felizes nos seios das suas famílias.

Foi na adolescência que Joca percebeu que não se relacionava muito bem com a pinga. Toda vez que tomava uma talagada, recebia um santo brigador e virava o capeta. Descontrolado, munia-se de um porrete e saía pelas ruas procurando encrencas: – Hoje eu estou com a gota serena… quem aí tem coragem de quebrar o pau comigo? A gente só para quando apenas um ficar vivo! Quem tiver coragem apareça que hoje eu estou com a febre do rato!!!  – gritava com voz trôpega, cambaleante pelos becos estreitos. A diversão predileta do valente era chegar no buteco, encher o dono de cascudos, jogá-lo no meio da rua para em seguida escancarar as portas para os relentos beberem até se empanzinarem.

Ao perceber que Joca era um caso quase perdido, como última tentativa o gerente o levou até o velho Sena. Deu um ultimato: ou Joca largava a cachaça ou o emprego! Joca era uma referência na pequena agência de “Candin”. Extremamente educado, atendia muito bem e na ausência do gerente conseguia satisfazer todo mundo. Após anos ralando, o moço conseguiu comprar com o suor do seu rosto um jipão caindo aos pedaços. Após uma bela pintada, quatro rodonas que só carro de “pleibóis” tem, uma capota reluzente e um jogo de luzes de neon – que decorava o teto -, o bólido ficou surreal… o ronco do motor fazia os amantes de automóveis suarem frio. Apesar de possuir o veículo mais cobiçado da região, Joca queria mesmo era ter um cavalo alazão, tipo manga larga marchador, onde pudesse arriá-lo sob medida e desfilar imponente pelas ruas, cavalgando feito um cangaceiro (ou vaqueiro).

Um belo dia não apareceu um destes ciganos que andam de porta em porta todo paramentado, trazendo na cabeça um chapelão, um lenço colorido amarrado ao pescoço e conduzindo um pangaré a tiracolo? Pois foi!  – Me falaste que queres adquirir um alazão, é verdade? – Antes que Joca respondesse ele já foi lhe empurrando um cavalo todo desbotado. – Taí, ó. Faço qualquer negócio! – Nem era preciso ser expert em cavalos para ver que o bicho estava em péssimo estado de conservação, todo mochilado. A boca torta, os dentes cariados, pereba nas ventas, dois imensos ossos estufados na parte traseira dos quartos, os cascos todos lambuzados de óleo queimado – para mascarar as rachaduras.  Claro que era um cavalo maquiado, porém, a paixão de Joca falou mais alto, após dar umas duas ou três acariciadas no equino, umas duas cheiradas no cangote e ver o sorrisão que o cavalo (visivelmente maltratado) lhe devolveu, um embevecido Joca aceitou fazer negócio na hora. Como o único patrimônio que possuía era o jipão, topou trocá-lo no pau pelo pangaré. O cigano ficou tão empolgado que saíu voado com o jipão. Com o sonho realizado, Joca ficou horas abraçado e só alisando o pangaré. A partir deste dia passou a tratar o animal como um filho. Dava dois banhos por dia, passava xampu perfumado, água de cheiro importada e após meia hora de escovação dava uma boa ariada nos dentes tronchos do animal.

Diariamente saía mato adentro cortando capim braquiara para alimentar o equino que se tornou um morador cativo da sua casa, inclusive, assistindo televisão na sala e dormindo na garagem novinha em folha que outrora, abrigara o jipão! Diariamente os vizinhos os viam passeando felizes com o animal sendo puxando delicadamente pela rédea. Logo começaram as reclamações, o fedor de esterco e mijos emanados da garagem iam dar diretamente nas cozinhas dos vizinhos. Para não entrar em desavença com a sua vizinhança, Joca acordava cedinho e dava uma bela de uma faxina na garagem, disfarçando o mau cheiro com creolina, cânfora, desinfetantes, água sanitária, detergente e até perfume.  Um belo dia – depois de adquirir em suaves prestações um arreio de prata – ele achou que chegara a hora de dar a primeira montada da sua vida. Após se paramentar, usando, inclusive, alpercatas de sola, esporas metalizadas, chapéu de couro e gibão… subiu no bicho e quando tentou cavalgar, percebeu que o pobre do animal andava caxingando. Foi aí que descobriu ter caído no “conto do cigano malandrão”.  Com o coração partido testemunhou que o pobre do pangaré, além de ter os quatros cascos rachados, ainda tinha uma das patas em carne viva e entupida até os beiços de morotós. Desesperado, saiu pelas ruas em busca de ajuda. Diante das sugestões, optou pelo método que achou mais fácil, lavar a pata bichada com óleo diesel e dar uma esquentadinha no fogo – garantiram que era tiro e queda.

Em um domingo pela manhã, reuniu os filhos pequenos, comprou dois litros de diesel e após encharcar a pata do bicho com um pedaço de estopa, ali mesmo no quintal, riscou o fósforo… foi surpreendido por um pipoco e uma rajada de fogo! O que restou do pobre animal foi à memória dos dois relinchos de dor e do salto espetacular sobre o muro do seu quintal, culminando com uma carreira desembestada rumo ao rio da ponte com a pata mais incandescente que a cabeça do motoqueiro fantasma. O animal bateu o recorde de velocidade da avenida principal. Nunca mais voltou. Depois deste dia, nem o Jipão e nem cavalo. Joca perdera os dois.

Mas, voltando ao velho Sena, assim que ficou cara a cara com Joca, o velho já foi dizendo: – Então gostas de tomar umas, né?

– Gosto sim senhor, tem um conhaquezinho aí? Se tiver eu tomo. – A estratégia do curador era embebedar o paciente só pra ver até onde iria a sua cachaça. Assim, após tomarem dois litros de “Presidente”, Joca ficou violento, passando a quebrar o que achava pela frente. Foi aí que entrou em cena a famosa “cura” do “exterminador de cachaceiros”. Sem muito pensar, seu Sena muniu-se de um cordão de São Francisco de uma grossura esquisita, jogou Joca no chão, pisou no pescoço e lhe aplicou uma surra tão lascada que o bancário ficou mais de um mês ostentando as marcas no lombo.

O gerente ficou satisfeito com o resultado, pagou até mais que o combinado. Joca nunca mais botou uma gota de álcool na boca, embora, virasse deprimido, devido à ausência do seu querido e insubstituível pangaré que nunca mais voltou a dar as caras por este torrão.

FIM

Luiz Carlos Figueiredo

Dos confins do Sertão da Ressaca.

Cândido Sales, BA. Quadras de Janeiro.

Crescente de Verão de 2025, ano da era cristã.