
No vilarejo da Vila de Santa Cruz dos anos 1960 existia um caboclinho mentiroso de fazer dó. Bentinho era filho de Dona Zeferina e de Seu Mané Gostoso. Desde pequerruchinho já se revelara um tremendo de um fanfarrão. Neste tempo, para se formar na longa escola da vida era necessário fazer um “intensivão” (de pelo menos seis meses) em “Sumpalo”. Do alto dos seus 15 anos quando o menino malino viu aquela renca de colegas apearem no pau de arara, capou o gato em direção à Paulicéia. Os jeitos e trejeitos do portuense não deram muito certo por lá e na primeira oportunidade o garoto voltou de mala e cuia. Nesta época quem conhecia o “roçadão” virava uma espécie de ídolo entre os reles mortais. Era comum o cabra estar desfilando pelas ruas e alguém cochichar: – Ele já foi em “Sumpalo”! – Bentinho foi, deu um trabalho lascado aos parentes de lá e após alguns meses, voltou e… ninguém deu a mínima – exceção feita à algumas meninas iludidas pelo seu jeitão maluco.
Sem conseguir emprego, Bentinho retornou todo abusado ao vilarejo… cabeludo, calça justa bem cintada adquirida em segunda mão, cheio de malandragem, conversava e mastigava as palavras ao mesmo tempo e tinha um atrevimento de meter medo. O caboclo adorava bulir com os rabos de saia. Era passar uma mulher e ele já ia “tomando boca”.
– E aí dondoca, vamo levá dois dedos de prosa? Sou gostoso ou não sou? – Ficava horas se admirando no espelho quebrado do buteco de Saracura! – Qual mulher resiste a um olhar destes? – Saracura era um negão de todo tamanho, musculoso e banguela, dono do principal buteco do vilarejo. Ao ouvir o fanfarrão, ficava calado, não queria fazer o filho de Mané Gostoso passar vergonha. Nem os amigos o suportavam. O caboclo era muito prosa ruim.
Neste tempo um dos homens mais prósperos do vilarejo era Bastião Carreiro, um nortista que dera ainda menino por estas bandas e conseguiu progredir com o suor do seu rosto. Sua olaria produzia tijolos e telhas exportadas até para cidades do entorno. O homem trabalhava feito um leão tocando a sua invejável junta de bois. Quando Nalvinha de Carmélia se perdeu sendo desdonzelada por Damião de Zé Colosso, expulsa de casa, se viu obrigada a buscar guarida no cabaré de Ana Calanga. Apesar de ter o dobro da idade da moça, Bastião estendeu-lhe a mão e ajuntaram os troços. Após três anos vivendo juntos, viraram o casal mais admirado do vilarejo. Nalvinha se transformara em uma ferrenha devota, temerosa à Deus não perdia uma missa. Dizia para as amigas que Jesus dera-lhe uma nova oportunidade. Ela e Bastião era uma “abraçação” lascada, uma “beijação” danada, um agarra-agarra medonho parecendo o casal mais apaixonado do mundo. Tudo corria às mil maravilhas até a chegada de Bentinho. Bastou butucar os “zói” na moça pro cabra ficar todo assanhado. Não demorou muito e lá estava ele arrastando as asas para os lados de Nalvinha.
Assim que se sentiu desejada a libido da moça voltou com tudo e mesmo fingindo que ignorava o assédio, retribuía as piscadas, os bilhetes e até os beijos que o malandrão jogava. A diferença de idade de Bentinho para Bastião era grande, Bentinho tinha um pouco mais de vinte e Bastião muito mais de cinquenta, embora, fosse forte feito um marruá. Trabalhando de sol a sol construíra em pouco tempo um pé de meia pra lá de satisfatório. Nalvinha – guardadas as devidas proporções –, tinha vida de princesa, porém, de tanto trabalhar o velho Bastião não conseguia cumprir na cama o seu papel de varão. Como jurara fidelidade ao velho que a resgatara das portas dos cabarés, a menina fazia um esforço dos diabos para manter a palavra, porém, diante das investidas do malandrão, o desejo falou mais alto. Um belo dia ao ir comprar uns mocotós na feira, a senhorinha topou com o fanfarrão, bastou se esbarraram para Nalva sentir o corpo ficar mais pinicado que milho em bico de pombo.
Não que o fanfarrão fosse lá estas coisas, porém, além do corpo bem delineado, era novo, tinha um bigodinho aparado na régua, cabelos empapuçados em brilhantina, chapeuzinho de malandro, andar saltitante e conversava sibilando igual cobra. Detentor de uma prosa ludibriosa entrelaçada à generosas doses de mentiras, quando deu por fé a ninfeta já estava pra lá de entrelaçada na sua rede… Com todo este “mecanismo” enganador não foi que o malandro deu de falar alguns “ípsilones” bem no “pé das orêas” da fogosa? Não demorou para obter o resultado desejado… logo, mais feliz que mosca em pereba, lá estava o fanfarrão navegando histericamente na reforçada cama de Bastião Carreiro. Baba aqui, lambe ali, empurra acolá e pelo jeito o negócio foi tão bom que a partir dali fizesse chuva ou sol, bastava Bastião dar as costas e já vinha o saltitante Bentinho adentrando sorrateiramente à casa de Nalvinha. Ficava do início da manhã até quase meio dia, quando (segundo alguns vizinhos) saía tranquilamente assobiando uma música de Roberto Carlos e penteando os cabelos com o seu pente de estimação!
A morada do velho Carreiro era parede meia com o Bar de Saracura e durante as manhãs podia se ouvir Nalvinha (sempre com as coxas entrelaçadas ao corpo do malandrão) gemendo em um barulhão desgraçado fazendo que metade dos homens do vilarejo se aglomerasse no buteco para testemunhar o “estrupício”. A sorte foi que Malaquias de Dona Odete, conversadorzinho feito o “diabo”, saiu espalhando pelo vilarejo que a cabeça de Bastião Carreiro estava igual pano de toureiro. Foi João de Luzia (um velho e fervoroso evangélico) ouvir para constatar pessoalmente a veracidade dos fatos. Quem testemunhou a cena contou que o velho ficou mais de duas horas de relógio ouvindo os gemidos da assanhada através de um copo de vidro encostado na parede. Parecia até que estava gostando já que durante a audição revirava intensamente os olhos e babava grotescamente. Após o término do evento, João de Luzia saíu correndo aluado até topar com Bastião em frente ao mercadão puxando inocentemente seu carro de bois.
– Bastião, meu filho, preciso te contar uma coisa de Nalvinha…
– Que foi João? Aconteceu alguma coisa com a minha amada? Pelo amor de Deus, fala logo! O que houve? Ela está bem? – Diante da afobação do pobre traído, João se viu obrigado a recuar…
– Bastião, Nalvinha sua “muié” está gritando feito uma doida lá na sua casa. Vá lá, “home”! Vá lá! Veja o que está acontecendo com ela.
– Será que ela tá passando mal? – Indagou o iludido.
– Num sei. Pelos gritos pode inté sê. Mas acho que ela está passando é bem. Vá lá depressa pra ver o que é! – Incentivou o ancião. Bastião sabia que João de Luzia não era homem de mentiras. Ao ouvir a história, largou os bois e pernas pra que te quero. Já adentrou a casa levando a porta no peito e assim que entrou no quarto flagrou o adultério em plena luz do dia. Ao surpreender os amantes nus, um sobre o outro, mais enroscados que rama de chuchu em cerca de vara… o pobre Bastião ficou completamente atarantado… sem pensar muito, gritou para a amada:
– Nalva, meu amor! Que porra é isso? O que “ocê tá fazeno cum ele”?
– Eu?!!! – Respondeu Nalvinha, atônita. – Nada! Você não viu nada!
Às vezes, os gestos respondem por si. Bastião viu, mas não quis acreditar. Aliás, acreditou… acreditou em Nalvinha, sua (ainda) “doce” esposa, que pressionada alegou ter sido “forçada” pelo fanfarrão, embora, não conseguisse explicar direito o que fazia sentada em cima do malandro, completamente nua se descabelando daquele jeito e uivando feito uma muriçoca. Mas… marido que se preza acredita mesmo é na “mulé”. Furioso, Bastião pegou Bentinho pelos cabelos e deu uma “pêa” de chicote tão lascada que o infeliz só não esticou as canelas ali mesmo porque foi acudido às pressas por João Saracura. Tratado com uma mistura de salmoura e óleo de rícino o infeliz ficou uma semana acamado. Dona Zeferina (a mãe chorosa) fez até promessa para o filho sobreviver acendendo velas na Loca de Sá Judite – local considerado sagrado. Foram mais de seis meses pro fanfarrão se recuperar. A partir daí, o caboclo aquietou o facho e toda vez que via Bastião Carreiro (mesmo de longe) dava uma caganeira lascada e corria segurando a barriga!
Bastião e Nalvinha viveram felizes anos à fio.
FIM
Luiz Carlos Figueiredo
Dos Confins do Sertão da Ressaca
Cândido Sales, Bahia. Quadras de Janeiro de 2026.
Lua nova de Verão.

